Apagaram-se os holofotes: o papa esquecido.

beneAquele semblante sereno de Bento XVI do dia 11 de fevereiro de 2013 jamais sairá de minha memória. Naquele consistório ordinário, que, de fato, tinha tudo para ser ordinário, tornou-se palco de um evento extraordinário.

Para quem não vivia aquela inércia espiritual típica de alguém que orienta sua fé a partir das circunstâncias e de seus próprios caprichos, emocionou-se diante do fim de um dos pontificados mais brilhantes da história da Igreja. Eu fui uma daquelas que chorou, que sentiu o coração apertado, que “perdeu o clima” do carnaval naquele dia, justamente porque lamentei – confesso – o quanto os católicos, em sua maioria, não souberam reconhecer o legado deixado pelo humilde servo da vinha do Senhor. Uma prova disso foi a enxurrada de comentários ofensivos relacionados à renúncia do papa; as especulações descabidas sobre as motivações para a renúncia; e, posteriormente, as comparações estúpidas entre Papa Francisco e ele.

O testemunho de um líder religioso que humildemente se reconhece incapaz de continuar, haja vista a missão exigente de estar à frente de uma das religiões mais importantes do mundo, deveria ser reconhecido, sim, pela grande massa católica que é chamada a ir contra a corrente em um mundo em que impera a lógica do poder.

Bento XVI nasceu no dia de Santa Bernadete, a humilde vidente de Lourdes. Inclusive, ele chegou a citar isso, orgulhosamente, no dia de seu aniversário, em 2012:

“Santa Bernadete com todo o saber e com todas as capacidades, que também são necessárias, nos ensina que não podemos perder o coração simples, o olhar simples do coração, o qual é capaz de ver o essencial; e devemos pedir ao Senhor que conservemos em nós a humildade”. 

E ele foi fiel e levou a sério o pedido que fez ao Senhor. Apesar dos 7 doutorados honoris causa, das 5 línguas que fala com fluência (fora a familiaridade com o hebraico, latim e grego), dos reconhecimentos nas várias academias da Europa e da carreira brilhante como teólogo e professor; jamais deixou que nada lhe subisse à cabeça, percebendo que suas maiores capacidades não teriam sentido se não fossem colocadas à serviço. Prova disso, foi a “sua primeira renúncia”: deixar a sua terra natal a pedido de João Paulo II. Ali começou na vida de Ratzinger a sequência de renúncias por amor a Deus e à Igreja. Ele só queria ser um padre dedicado aos estudos, um simples colaborador da Igreja, o Cooperatores Veritatis que levou o seu lema episcopal a sério.

Já cardeal residente em Roma, ele teve que renunciar à sala de aula para se debruçar sobre documentos, identificar ataques contra

Pope Benedict XVI

 a fé, punir religiosos envolvidos em desvios de ordem moral e auxiliar João Paulo II, de quem tornou-se o principal conselheiro.

Devemos a ele a organização do Catecismo da Igreja Católica – e, mais tarde, o Catecismo Jovem (YouCat) -, as maiores reformas legislativas da Congregação para a Doutrina da fé, inclusive, para tratar com mais rigor os casos confirmados de pedofilia envolvendo religiosos, além de inúmeros documentos escritos por João Paulo II, nos quais há sempre a marca dele.

É injusto que alguém que fez tanto, caia no anonimato. Mas o Mestre dos mestres também foi esquecido na cruz, deixado pela maioria dos amigos, mal interpretado pela multidão. O que me consola é que Bento XVI vive o que vive porque nunca desviou os olhos do Mestre, a quem, em plena consciência, consultou ao assumir o papado e também quando teve que renunciá-lo. Sim, ele continua em seu mosteiro, dificilmente é lembrado, mas sabe que a santidade é  vivida com olhos fixos em Deus, no silêncio, no íntimo do coração e, principalmente, quando os ‘holofotes estão apagados’.

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