A QUARESMA E A BUSCA DA LIBERDADE

A liberdade é constitutiva do ser humano, e ser livre o distingue de todas as criaturas, pois torna possível o exercício da vontade. Viver com dependências priva a pessoa de sua vontade e, fazer o outro dependente de mim significa usurpar o direito de priva-lo da humanidade. Mas, tanto o lutar contra as dependências como o protestar contra a escravização imposta significa querer ser pessoa, recuperar a dignidade ameaçada. Em outras palavras, lutar contra a escravização já é exercitar a liberdade.

É para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5,1). O versículo de Paulo foi escolhido pela Igreja no Brasil como lema da Campanha da Fraternidade, cujo tema é a libertação da escravidão imposta pelo tráfico humano de pessoas, crianças, mulheres e órgãos. Escravo de si, o homem se arroga o direito de escravizar para si. Escravo do dinheiro ou do prazer, não tem escrúpulos de roubar a liberdade de alguém, porque é dominado por sua vontade escravizada. Corrompido em sua estrutura pessoal pela violência, corrompe os que se encontram fragilizados pelas tantas escravizações modernas.

Jesus Cristo libertador é o fundamento da salvação humana que se realiza na restauração da imagem e semelhança divina no homem e na mulher. Deus não nos criou para as dependências do medo, do prazer e da morte, mas sim, para a liberdade de filhos que se tornam capazes de amar, partilhar, reunir, dar a vida. Mesmo o ato de fé pode ser corrompido pela escravidão se a vida de fé é instrumentalizada para alimentar o narcisismo, o medo, a superstição, o domínio. Já, por um caminho nem sempre evidente, sinal muito forte da decisão pela liberdade é a religiosidade popular que faz o pobre crer na sua força, que fez o negro escravo alimentar com rituais sua história para que não perdesse a dignidade. Dela se origina a força da rebelião, da fuga da escravidão. É muito indicativo que as terapias de libertação de vícios encontram eficácia verdadeira e permanente se ligadas a um ato de fé no Deus da vida que, a cada dia, renova a decisão pela libertação.

Querer ser cristão é querer ser livre, humanamente íntegro. Em nossa vida quotidiana, ser livre do olhar do outro, da moda, preguiça, hedonismo, fechamento em si, prazer, supérfluo, desperdício, aparência exterior, ódio, ressentimento, e de todas as drogas. Cristo nos quer seres viventes, não dependentes, e para a liberdade nos libertou da idolatria, vaidade, soberba, dinheiro. Fez-nos tão livres que somos capazes de amar.

Fez-se pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza.

(cf. 2 Cor 8, 9)

Francisco inspirou-se nessa frase de Paulo para a Mensagem quaresmal que enviou à Igreja: “Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza” (2 Cor 8, 9). O Deus forte é o Deus frágil, o Deus rico é o Deus pobre, o Deus de Jesus é o Deus Pai que nos dá seu Filho. Tudo aconteceu na encarnação e na redenção, na manjedoura de Belém e na cruz do Calvário.

É o estilo de Deus: revelar-se por meios pobres e frágeis, na generosidade, no amor pura graça de quem quer ser nosso próximo. É inaudito na história religiosa: o Salvador anuncia-nos o Deus amor que quer nos amar, que bate à nossa porta para cear conosco, que pede licença para nos oferecer tudo. Tão frágil como cada um de nós e, com isso, entre nós e ele, e entre nós, o amor divino gera semelhança, cria igualdade, abate os muros e as distâncias. Com a parábola do Bom Samaritano (cf. Lc 10, 25-37), Jesus oferece um retrato da pobreza de Deus: encontra o homem violentado quase morto à beira da estrada, pensa suas feridas, e o leva a uma hospedaria. Escreve Francisco: “a pobreza de Cristo, que nos enriquece, é ele fazer-se carne, tomar sobre si as nossas fraquezas, os nossos pecados, comunicando-nos a misericórdia infinita de Deus”. Cristo se faz pobre nos Sacramentos, na Palavra e na sua Igreja, que é um povo de pobres. Quem é dominado pela ânsia de glória não crê na pobreza dos gestos sacramentais, na simplicidade das Bem-aventuranças.

“É para a liberdade que Cristo nos libertou” da miséria, “que é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança”.

Francisco distingue três tipos de miséria que impedem a verdadeira libertação e a liberdade: a miséria material, privação dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiênicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural.

miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado e que traz imenso sofrimento para as famílias que têm um membro subjugado pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia, o que pode ser fruto de uma opção pela morte, ou da falta de perspectivas de futuro, de trabalho, de pão, de educação, de esperança. Enveredar por esse caminho, diz Francisco, é um suicídio incipiente: se não buscar a libertação, a pessoa gera para si um caminho que leva à morte.

E a miséria espiritual pode ser causa das misérias pessoais, ou sociais, quando o egoísmo mergulha os outros nelas. Quando nossa soberba nos convence de que somos auto-suficientes, de que Deus é uma paixão inútil, afastamos Cristo que nos dá a mão, negamos olhar de quem se encontra ao nosso lado, vamos a caminho da falência.

O único que verdadeiramente salva e liberta é Deus que, oferecendo-nos seu Filho, nos recria libertando-nos da morte. A Quaresma oferece-nos a oportunidade de despertarmos para a vida, restaurar as forças para vencer as escravidões.

Pe. José Artulino Besen

Anúncios

LEIA ANTES: os comentários devem ser respeitosos e relacionados estritamente ao assunto do post. Toda polêmica desnecessária será prontamente banida. Todos os comentários são de inteira responsabilidade de seus autores e não representam, de maneira alguma, a posição de "Kerigma, A Proclamação da Palavra". Não serão aprovados os comentários escritos integralmente em letras maiúsculas. A edição deste blog se reserva o direito de excluir qualquer comentário que julgar oportuno, sem demais explicações. O espaço para comentários é encerrado automaticamente após quinze dias de publicação do post.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s