65. O Senhor dos Anéis

No Brasil, as pessoas conhecem mais “O Senhor dos Anéis” pelos filmes dirigidos por Peter Jackson, mas a saga que saiu da pena de J. R. R. Tolkien é algo muito maior que isso. A obra deste escritor britânico reflete, em meio às aventuras de elfos, hobbits e outros seres fantásticos, a alma de um verdadeiro católico.
Sir John Ronald Reuel Tolkien nasceu em 1892, na cidade de Bloemfontein, no território da atual África do Sul, e já muito cedo se mudou para a Inglaterra, terra natal de seus pais. O seu pai, Arthur Tolkien, morreu em 1896, deixando mulher e filhos em uma difícil situação financeira. Quando Mabel Suffield, sua mãe, passou da religião anglicana ao catolicismo, sua família negou-lhe ajuda e ela passou o martírio de cuidar sozinha de seus filhos, para que não caíssem nas mãos de seus familiares. Por causa do excesso de trabalho e do diabetes – na época, sem tratamento –, ela veio a falecer. No seu testamento, porém, estabelecia como tutor das crianças um padre jesuíta, garantindo a elas uma educação católica. Foi de tal sorte valiosa a educação que recebeu que, de seu casamento com Edith Bratt, em 1913, advieram-lhes quatro filhos, dentre os quais um tornou-se sacerdote.

Muito embora Tolkien não tenha abordado em sua obra, de modo explícito, a questão da fé – com “O Senhor dos Anéis”, ele queria simplesmente experimentar sua capacidade de aventurar-se por uma narrativa longa e que pudesse entreter os leitores –, toda ela traz, dentro de si mesma, vários valores religiosos e católicos.

Sob a perspectiva das quatro causas de Aristóteles, é possível identificar a catolicidade do livro de Tolkien na causa formal: a forma mentis, a mentalidade que inspira toda a saga é, sem sombra de dúvida, moldada pela doutrina católica. O próprio autor reconhece que a história se passa dentro de um ethos católico.

Ele nega, porém, que “O Senhor dos Anéis” se trate de uma alegoria, algo característico das obras de outro escritor cristão, o anglicano C. S. Lewis. Tolkien e Lewis eram amigos e uma das controvérsias que marcaram seus encontros esteve relacionada justamente à forma de escrever seus textos: aquele dizia não gostar de alegorias, pois considerava uma espécie de violência do autor contra o leitor; este, ao contrário, produzia-as aos montes, como é notável em seu célebre “As Crônicas de Nárnia”. Por exemplo: quem entra em contato com esta obra mas não percebe, desde o início, que Aslam é Jesus Cristo, não consegue compreender o que se passa na história. A obra de Tolkien, neste sentido, é muito mais rica: substitui a construção alegórica por uma representação bem mais maleável. Por exemplo, os três protagonistas da obra, Frodo, Gandalf e Aragorn, são uma imagem do Cristo que ressuscita: Frodo chega perto da morte na Montanha da Perdição e, lá, derruba o anel; Gandalf morre enfrentando Balrog, mas ressuscita como Mago Branco; Aragorn, então rejeitado como um simples andarilho (ranger), torna-se o rei que retorna. Ao mesmo tempo, as três personagens representam as dimensões sacerdotal, profética e régia de Cristo: Frodo é Cristo-sacerdote, que se oferece em sacrifício para vencer o mal; Gandalf é Cristo-profeta, que com suas sabedorias e conselhos conduz aqueles que batalham contra o mal; e Aragorn é Cristo-rei, que, primeiro, era desprezado pelos seus, mas, depois, volta para reinar.

“O Senhor dos Anéis” deve ser um livro de cabeceira, com o qual devemos gastar o tempo, quando estivermos dispostos ao lazer. O próprio Doutor Angélico reconhece a necessidade que o homem tem de descansar a sua alma com momentos lúdicos e recreativos:

“Essas palavras e ações nas quais não se busca senão o prazer da alma chamam-se divertimentos ou recreações. Lançar mão delas, de quando em quando, é uma necessidade para o descanso da alma. E é o que diz o Filósofo, quando afirma que ‘em nosso dia-a-dia, é com os jogos que gozamos de algum repouso’. Por isso, é preciso praticá-los, de vez em quando.”[1]

Cultivar uma literatura como esta é importante e não só para fins recreativos, como para a melhor compreensão da própria fé cristã. Mais importante do que o que você fará com “O Senhor dos Anéis” é o que “O Senhor dos Anéis” fará com você. A temática do livro, embora não seja diretamente a questão religiosa, conduz-nos de alguma forma a esta luta contra o mal, na qual Deus está implicitamente presente. Ainda que em momento algum Tolkien fale de Deus, a personagem principal de toda a história é Ele. A obra trata de um mundo fictício, pré-cristão, no qual estamos de alguma forma sendo preparados para Cristo – da mesma forma que o Antigo Testamento preparou nossa vontade, a filosofia grega preparou nossa inteligência e os mitos prepararam as nossas paixões para a vinda do Salvador.

Um dos grandes problemas da pedagogia moderna é que as histórias que antes eram narradas com toda a tranquilidade para nossas crianças têm desaparecido. Elas foram substituídas por fábulas ideológicas, que lhes querem transmitir outros valores. Para evangelizar uma pessoa, é necessário recuperar essas histórias fantásticas que têm sido abandonadas por certos “educadores” contemporâneos; é importante que sejam introduzidas nela as categorias cristãs – como numa casa é preciso que haja primeiro os cômodos, para depois ser colocada a mobília. A fantasia é importante para criar espaços e preparar o terreno para Jesus.

De que modo, então, Deus é o protagonista de “O Senhor dos Anéis”? O tema principal de toda a saga é a destruição de um anel. O anel da invisibilidade é a potência terrível do pecado original, a tentação do ser humano de colocar-se no lugar de Deus. Existem duas formas de agir dentro da história: há aquelas pessoas que, em contato com a realidade, deixam transformar a sua alma pela verdade e existem aquelas que preferem transformar a verdade, manipulá-la e pervertê-la. Os elfos têm aquele primeiro tipo de ação, benigna; eles são artistas, são co-criadores, eles criam, mas junto com Deus: fazem poesia, cantam e essas coisas são capazes de mudar os corações. Do outro lado, há os orcs, que querem perverter o mundo real – e representam, de certo modo, a “mentalidade revolucionária”.

Durante a narrativa, Tolkien abre uma janela para mostrar que a história é apenas uma preparação para o Evangelho que virá. No primeiro livro – A Sociedade do Anel –, Gandalf diz a Frodo:

“Por trás disso havia algo mais em ação, além de qualquer desígnio de quem fez o Anel. Não posso dizer de modo mais direto: Bilbo estava designado a encontrar o Anel, e não por quem o fez. Nesse caso você também estava designado a possuí-lo. E este pode ser um pensamento encorajador”[2].

Percebe-se na fala do Mago Branco a existência de um “desígnio”, de uma providência que age por detrás da história.

Outro exemplo de transcendência, de abertura ao divino, está em O Retorno do Rei. Quando Frodo e Sam estão já perto da Montanha da Perdição, em uma região que “parecia cheia de estalos, rangidos e ruídos dissimulados” e onde “o céu noturno estava pálido e baço”, Sam avista uma estrela:

“Lá, espiando por entre os restos de nuvens sobre uma rocha pontiaguda nas montanhas, Sam viu uma estrela branca reluzir por uns momentos. Sua beleza arrebatou-lhe o coração, quando desviou os olhos da terra desolada, e ele sentiu a esperança retornar. Pois como um raio, cristalino e frio, invadiu-o o pensamento de que afinal de contas a Sombra era apenas uma coisa pequena e passageira: havia luz e uma beleza nobre que eram eternas e estavam além do alcance dela.”[3]

Quando o ser humano se depara com muitas notícias ruins, com uma realidade às vezes pouco entusiasmante, com uma autêntica “Sombra”, devolve-lhe esperança o fato de que, para além de toda a maldade e violência deste mundo, para além de toda a transitoriedade das realidades terrenas, há “luz e uma beleza nobre (…) eternas”.

Aqui se introduz o que Tolkien chama de eucatástrofe: quando o pior está acontecendo, quando a situação está ruim, quando tudo parece desesperador, acontece o contrário da catástrofe – uma “boa catástrofe”. Por que as coisas são assim em “O Senhor dos Anéis”? Porque foi precisamente isto o que aconteceu há 2000 anos atrás, com a ressurreição de Cristo. A partir da leitura de todas as lendas e mitos antigos, é possível perceber esta linha de continuidade: há um ambiente bom, perturbado por uma maldade, e que, depois, é redimido de alguma forma. No Evangelho, isto que estava presente apenas nos mitos fez-se carne, fez-se história. Aquilo que todos os mitos previam e que o esforço racional humano apenas alcançava imperfeitamente aconteceu de modo pleno em Cristo.

“O Senhor dos Anéis” tem essa capacidade extraordinária de conduzir-nos ao abismo para tirar-nos de lá. É a razão presente não só na literatura, mas também na música – nas composições de Mozart, por exemplo – e em outras modalidades artísticas. Todas elas, transparecendo a Beleza, conduzem ao cume da redenção, que se realizou na história: a Cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.

Referências

  1. Suma Teológica, II-II, q. 168, a. 2
  2. J. R. R. Tolkien, O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel, capítulo 2.Edição em PDF, p. 48.
  3. J. R. R. Tolkien, O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei, capítulo 2.Edição em PDF, p. 140.

 

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