Um Pontífice não negociável.

Giuliano Ferrara[1] em “Il Foglio”, 06/03/2014 | Tradução: Fratres in Unum.com –   Um Papa que anuncia em Roma querer tornar público o texto secreto sobre o homem e a família de Walter Kasper, em alemão, no (jornal) “Corriere della Sera”, tem um espírito burlão não negociável. Mas isso não basta. Francisco também disse que não é um especialista em bioética. Portanto, na morte dos homens, das mulheres e das crianças, como na desafortunada Bélgica, deve-se  consultar os especialistas. Humor macabro por parte de um padre, como ele gosta de se apresentar! Especialistas em humanidade, oficiantes de batismos, matrimônios e funerais, essencialmente, os padres deveriam, nestas matérias, ensinar os outros, e não serem objetos de aprendizado. Mas, não tem problema… Ao jornal, responde que sim, de acordo!, existem instrumentalizações acerca da pedofilia, da infância…, mas a Igreja está agindo corretamente. Tudo bem! Mas, em geral, sobre os assim chamados “princípios inegociáveis” responde que não concorda com esta expressão e que os valores são todos iguais.

Já que Bento XVI, Papa emérito, habita não tão distante dele, Francisco poderia fazer-lhe alguma consulta, sem perda de tempo e de energia. Os valores, talvez, são uma abstração, uma expressão falida, abusada. Também Formigoni[2] tem seus valores. Falamos de critérios. Há o critério da honestidade e da beleza de coração, e é preciso conformar-se com este dócil e lealmente, mas cada um o faz a seu modo, com sua fé pessoal, especialmente na Igreja da misericórdia evangélica querida com tanta força por Francisco, como jesuíta quinhentista. Porém, existem outros critérios quase banais de condução da própria liberdade. Coisas assim, quotidianas, que influem até um certo ponto na vida dos outros, que completam o homem e a mulher, “macho e fêmea os criou”, uma vez que sejam santificados no osso de sua personalidade humana ligada à transcendência divina.

Então, chegamos aqui aos critérios não negociáveis. Não são “forçadas de barra” acadêmicas dos teólogos alemães, não são preceitos rígidos que afastam as pessoas da fé católica, ou do Deus “não-católico” da Igreja latina hodierna, são questões de substância racional, irremovíveis, eternas, ligadas à natureza e a cultura de modo inseparável. Você é homem ou mulher; o hermafroditismo é um mito espetaculoso, desejo, condição excepcional, comportamento, mas não realidade. Não negociável. Você nasce ou, uma vez concebido, é aspirado ou envenenado no ventre de sua mãe, e não nasce de fato para a liberdade, para a alegria e para as dores da vida, porque é descartado como embrião defeituoso ou simplesmente não querido e jogado fora como “lixo hospitalar”. Não negociável, o critério da vida. Você é pessoa ou instrumento, filho produzível como fármaco ou como projeção do desejo dos progenitores. Não há uma terceira alternativa negociável. Você está dentro de um matrimônio santo pela abertura ao futuro, pela construção de uma família, para a educação dos jovens, ou senão você é uma complicada e legítima história de amor que é aberta a tudo isso de modo não natural, não canonizável, algo como uma encomenda produzida pelo estado, que é diferente da Igreja. Não matrimônios diversos do matrimônio. Você está vivo ou está morto. Ariel Sharon e Beniamino Andreatta, um judeu e um católico, viveram anos dormindo. As crianças belgas não, se as faz dormir antes.

 


[1] Giuliano Ferrara, jornalista e político conservador italiano. Apesar de não religioso, afirma crer num Deus pessoal e, ao longo de sua trajetória, se foi aproximando mais e mais das posições da Igreja Católica, especialmente durante o pontificado de Bento XVI. Com os escândalos do vatileaks, acabou se posicionando de modo assaz crítico em relação ao papa, chegando a pedir sua “demissão”. No entanto, mesmo suas queixas sempre foram a la destra (ndt).

[2] Roberto Formigoni, político italiano, senador, presidente por quatro vezes da Região de Lombardia (ndt).

 

Via http://fratresinunum.com/2014/03/06/um-pontifice-nao-negociavel/

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