DÁ-ME DESSA ÁGUA, SACIA A MINHA SEDE.

As leituras da liturgia de hoje tem um tom nitidamente batismal, como também a terão as leituras dos dois domingos posteriores. E o símbolo batismal é a água, que sacia a nossa sede e nos trás vida.

A primeira leitura recorda um episódio da travessia do povo de Deus pelo deserto a caminho da terra prometida. Acabou a água e não havia rios ou fontes para abastecer os hebreus. Nervosos, eles recorrem a Moisés, que por sua vez ora a Deus. O Senhor tira água do rochedo e com isso a vida está garantida. Esse episódio é recordado no Salmo que canta a alegria da salvação – “Aclamemos o Rochedo que nos salva” (Sl 94, 1b). Mas o mesmo salmo recorda que o povo duvidou da providência de Deus, fechando seu coração. Por isso o refrão do salmo tem tom penitencial: “Hoje não fecheis o vosso coração” (Sl 94, 8). Apesar do pecado, Deus providencia a água, mas a maior saciedade que se deu não foi da sede momentânea, causada pela desidratação, mas sim da certeza de que o Senhor caminhava com eles e que nunca mais sentiriam sede. Fizeram a experiência da presença de Deus “que é o pastor que conduz suas ovelhas com sua mão” (Sl 94, 7). Sentiram de perto do amor de Deus pelos seus filhos.

Esse mesmo amor vai ser narrado por Paulo na segunda leitura: “a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5, 8). E o Evangelho vai narrar o encontro de Jesus com uma mulher na Samaria, mostrando como o amor de Deus é restaurador.

Na cena de Jo 4, 5-42 vê-se o encontro de duas fontes de água e de duas sedes. O poço de Jacó, que era uma herança que os samaritanos receberam de seu patriarca, era a primeira fonte. De fundamental importância para a vida do local, era ali que vinham as mulheres retirar a água e também era ponto de encontro, de partilha e de comunicação. Jesus está ali ao meio dia, hora do maior calor e depois de uma caminhada. Está com muita sede e por isso pede à mulher: “Dá-me de beber” (Jo 4, 7). A sede de Jesus era a mesma da mulher: sobrevivência humana.

Mas havia outra sede. A mulher veio tirar água na hora mais quente do dia, sem acompanhante e no momento em que não haveria ninguém no poço. Por que a escolha por esse horário? Talvez por ser uma mulher má afamada e desprezada, ela não se arriscasse a ir de manhã, na companhia de outras mulheres. A mulher estava acostumada com o desprezo e se admira que Jesus não a despreze. Ela se impressiona que Jesus se humilhe diante dela para pedir água. A primeira gota d’água que lhe mataria a sede foi dada, o reconhecimento. Aquela mulher foi tratada com importância, não só porque Jesus lhe pediu um favor, mas principalmente porque Jesus lhe deu atenção, valorizou sua pessoa e seu passado. Valorizou seus questionamento e sua fé. Mesmo ele conhecendo seus pecados e ela admitindo ser pecadora, Jesus a acolheu, o que significou para ela um novo nascimento. Pois eis que a mulher que veio ao poço para fugir do encontro com as pessoas, ao reconhecer em Jesus o Cristo, parte ao encontro das pessoas, anunciando-o para todos. Para essa sede da mulher, a fonte era o próprio Jesus.

Uma música dos anos oitenta perguntava: “Você tem sede de quê?” “A sede é símbolo de uma necessidade íntima, vital, torturante. Além da sede fisiológica há uma sede mais profunda em todos nós. Buscamos cada vez mais “coisas” para saciá-la; nada nos basta, nada nos satisfaz. Nossa sociedade só nos oferece “bens de consumo”, não valores espirituais. Convida-nos ao oportunismo, ao mais fácil, mais seguro, mais cômodo. Os ideais de coerência, de sinceridade, de amor, que existem em todos os homens são, em geral, frustrados, traídos por quem os propugnam ou pelo indivíduo incapaz de resistir à pressão dos que o cercam. A revolta das pessoas tem sua raiz nessa sede não aplacada, nessa decepção por tudo que lhes é oferecido, tão distante das verdadeiras e profundas exigências do homem. Continuamente o homem faz a experiência de que aquilo que conquistou nunca é uma conquista definitiva. A técnica, as descobertas científicas não matam a sede de segurança, de esperança, de felicidade que todo ser humano sente.” (Missal Dominical, p. 161)

A saciedade de nossa sede só se dá no verdadeiro encontro. Primeiro nos encontrando com Jesus, fonte da vida, que nos ama apesar de nossos pecados, que tem paciência em nos ensinar a fazer o bem, que respeita nossos passos e as fases de nosso crescimento espiritual e humano. E depois de saciados por Cristo, estaremos prontos para verdadeiros encontros com nossos irmãos, estaremos prontos para acolher as pessoas, deixar de lados os preconceitos e viver o verdadeiro amor. No encontro com Cristo nós matamos nossa sede de sentido para a vida, e inevitavelmente o levaremos às pessoas, pois seremos reflexo de seu amor. E isso proporcionará às pessoas um encontro com o Cristo, de modo que cheguem a dizer como os samaritanos: “Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o salvador do mundo” (Jo 4, 42)

Pe. Elcio José de Toledo,SJ

Anúncios

LEIA ANTES: os comentários devem ser respeitosos e relacionados estritamente ao assunto do post. Toda polêmica desnecessária será prontamente banida. Todos os comentários são de inteira responsabilidade de seus autores e não representam, de maneira alguma, a posição de "Kerigma, A Proclamação da Palavra". Não serão aprovados os comentários escritos integralmente em letras maiúsculas. A edição deste blog se reserva o direito de excluir qualquer comentário que julgar oportuno, sem demais explicações. O espaço para comentários é encerrado automaticamente após quinze dias de publicação do post.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s