Católicos perseguidos na Ucrânia: “A Rússia espalhará seus erros pelo mundo…”

Por The Boston Pilot | Tradução: Fernando Seixas – Fratres in Unum.com –  Um padre na Crimeia relata que os fiéis estão alarmados pela ocupação militar russa, e temem que a Igreja seja posta na ilegalidade novamente se a invasão permanecer.

Pe. Mykhailo Milchakovskyi, pároco em Kerch, Ucrânia, descreveu a tensão dos residentes dessa cidade, parte oriental da Crimeia, inseguros sobre seu futuro.

“Ninguém sabe o que vai acontecer. Muitas pessoas estão tentando vender suas casas e mudar para outras partes da Ucrânia”, disse o Pe. Milchakovskyi ao Serviço de Notícias Católico em 12 de março.

“Nossa Igreja não tem reconhecimento legal na Federação Russa [referência à Igreja Ucraniana Greco-Católica, em plena comunhão com a Santa Sé], então é incerto qual Direito será aplicado se a Crimeia for anexada. Tememos que nossas igrejas sejam confiscadas e o clero seja preso”, disse o padre, em meio às tensões sobre o referendo de 16 de março, sobre a permanência dessa república autônoma como parte do Estado Ucraniano ou sua anexação à Rússia.

Pe. Milchakovskyi disse que o líder da Igreja Ucraniana Greco-Católica, o Arcebispo de Kyiv-Halych, Sviatoslav Shevchuk, pediu orações e apoio para o caso de qualquer católico “encontrar-se sob perigo”.

Ele menciona que a Igreja teme que a invasão russa possa resultar em nova opressão sobre os católicos ucranianos, a cujas cinco comunidades pertencem tradicionalmente 10% dos 2 milhões de habitantes da península da Crimeia.

“Muitos já deixaram de vir à igreja, depois de serem rotulados como nacionalistas e fascistas por provocadores locais”, disse o Pe. Milchakovskyi.

“Os ortodoxos sempre insistiram serem dominantes aqui, e fizeram tudo para tornar nossa vida o mais desagradável possível. Se tiverem as mãos livres agora, não sabemos se irão portar-se como cristãos ou se manterão tal política de inimizade”, adicionou.

Sob o regime soviético, de 1946-1989, a Igreja Católica de rito oriental foi banida. Os fiéis que puderam passaram à clandestinidade, enquanto outros tiveram de frequentar igrejas ortodoxas, ou nem isso. O governo confiscou todas as propriedades da Igreja, dando bens aos ortodoxos e secularizando os demais.

Em janeiro, o Arcepisbo Shevchuk disse que o presidente deposto, Viktor Yanukovych, ameaçou banir a Igreja Ucraniana Greco-Católica por seu apoio aos manifestantes pró Ocidente. No entanto, Leonid Novokhatko, antigo ministro da cultura, agora nega que Yanukovych o tenha planejado.

O pe. Milchakovskyi diz que tem-lhe sido permitido visitar os católicos que servem a infantaria naval em Kerch, como capelão militar, após a base ter sido bloqueada por forças russas.

Relatou que as tropas russas “controlam quem e o quê passa”, e disse que os jovens recrutas precisam de comida e remédios.

“Todos dizem que o resultado do referendo já é conhecido, embora muitos gostassem de votar pela permanência na Ucrânia, ou pela manutenção da Crimeia como seu estado autônomo”, disse o padre ao SNC.

“O referendo não terá validade jurídica, e não sabemos nem mesmo quem o irá conduzir ou contar os votos. Mas estamos muito preocupados que os resultados sejam usados como pretexto para atuação contra nós”, o padre disse ao SNC.

Dois dias antes, em outra entrevista ao SNC, o pe. Milchakovskyi disse que os católicos provavelmente nem votarão.

“Eles dizem que não é válido. Que é simplesmente ilegal, e não irão tomar parte nisso”, disse, usando sua esposa Alexandra como intérprete. Ao clero oriental é admitido casar-se antes da ordenação. Russos étnicos são 58% da população da Crimeia, composta, ainda, de 24% de ucranianos e cerca de 12% de tártaros muçulmanos.

Sobre a invasão russa na Crimeia, o pe. Milchakovskyi disse: “Temos Internet. Temos o suficiente para comer e podemos usar a Internet, além de alguns canais de TV ucranianos, que já não conseguimos sintonizar, então não assistimos. Os ocupantes trocaram os canais ucranianos por russos”.

Notícias de 12 de março relatam que grupos de voluntários desarmados, com apoio de autoridades locais, estão tentando proteger igrejas, mesquitas e cemitérios de saques e vandalismo.

Enquanto isso, em declaração de 11 de março, um bispo ortodoxo da Crimeia ligado ao Patriarcado de Kyiv, que apóia o novo governo da Ucrânia, disse que muitos proeminentes ativistas pró Ocidente desapareceram. A declaração menciona que há “perigo real à vida de ucranianos” no território.

Em apelo datado de 11 de março, clérigos do vicariato católico latino noticiaram que oficiais russos tomaram propriedades de habitantes da Crimeia.

“Nossos padres estarão com os fiéis aconteça o que acontecer, mas todos estão vivendo sob guerra e estado de sítio, sem ajuda humanitária”, disse, nesse apelo, o bispo auxiliar de Odessa-Simferopol, Jacek Pyl.

Comida e combustíveis têm seus preços sob “forte alta”, relata o padre Milchakovskyi.

“Nossos paroquianos não são ricos, nem o clero o é, mas nós não podemos pedir dinheiro ou ajuda material porque não há sequer como recebê-la”, disse o padre.

“Contamos com as preces dos cristãos de fora e seu apoio moral, protestando e dando conhecimento de nossas dificuldades pelos meios mais abrangentes possíveis”.

Mark Pattinson, em Washington, contribui para a reportagem.

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Três padres católicos desaparecem na Crimeia

Por Risu.org – Hoje [16 de março], por volta das 14:00 hs., o pe. Mykola Kvych desapareceu novamente. Ele foi sequestrado ontem, e libertado após algumas horas. A última coisa que ele disse foi: “se eu não entrar em contato novamente, comunique aos fiéis que meu apartamento em Khrustalova foi atacado. É a polícia e as forças armadas “pró Rússia”. Eles são muitos, muitos. Há portas de metal, mas não sei por quanto tempo elas conseguem resistir”. Agora, ambos os celulares do pe. Mykola encontram-se desligados, apesar de terem permanecido ligados durante a invasão de seu apartamento e sua prisão, ontem.

“Hoje, por volta das 12:00 hs., eu falei com Pe. Mykola. Ele disse que teria uma entrevista com jornalistas finlandeses. É possível que eles estivessem no apartamento quando houve o ataque”, disse o Pe. Ihor Yatsiv, do departamento de informações da Igreja Ucraniana Greco-Católica.

Um correspondente do Serviço de Informações Religiosas da Ucrânia falou com o pe. Mykola às 13:00 hs., que disse que havia jornalistas com ele, e que o apartamento estava sob ataque.

Paroquianos de Evpatoria relataram que o Pe. Bogdan Kostecki também desapareceu. Ontem ele retornou de Ternopil, para onde tinha levado sua família. Desapareceu após ter telefonado no sábado, às 22:00 hs., para dizer ter chegado na Crimeia. Os telefones do Pe. Bogdan também estão desligados.

Outro padre da Crimeia, Ihor Havryliv, também está desaparecido. De acordo com informações preliminares, ele estaria no carro junto com o pe. Bogdan Kostecki.

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Encontrados os três padres ucranianos desaparecidos, agora em segurança

Os padres ucranianos católicos cujo desaparecimento foi relatado na Crimeia hoje estão vivos e seguros. O correspondente do Serviço de Informações Religiosas da Ucrânia falou com o pe. Mykola Kvych, pároco em Sevastopol. Ele está em segurança em outra região da Ucrânia, com a ajuda de paroquianos que o ajudaram a fugir da Crimeia. Como noticiado mais cedo, forças armadas “de autodefesa” da Crimeia tentaram atacá-lo durante entrevista a jornalistas finlandeses.

“Na porta do apartamento em que vivo, hoje apareceram diversos indivíduos desconhecidos que, por longos períodos, e de forma contínua, tocavam um sino e forçavam a porta. Quando foram embora, saí do prédio com os paroquianos. Levei apenas o cálice, a patena e meus documentos”- disse o pe. Mykola.

O padre Kvych disse que conseguiu contactar o pe. Ihor Havryliv, pároco em Yalta, agora em lugar seguro com o outro sacerdote desaparecido, pe. Bogdan Kostecki, que serve em Evpatoria. Ele não mencionou os locais exatos.

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