“É possíver ter Jesus como amigo porque, tendo ressuscitado, ele está vivo, está ao meu lado

Existem várias vias de acesso ao mistério de Cristo. Padre Raniero Cantalamessa, na sua quarta pregação de Quaresma, continua o caminho traçado da Tradição da Igreja: o “dogma cristológico”, compreendido como “as verdades fundamentais sobre Cristo, definidos nos primeiros concílios ecumênicos, especialmente no de Calcedônia”. Em definitiva tais verdades, continua o Capuchinho, “se reduzem aos seguintes três pilares: Jesus Cristo é verdadeiro homem, é verdadeiro Deus, é uma só pessoa”.

 

O pregador da Casa Pontifícia escolhe São Leão Magno para entrar nas profundezas do mistério cristológico. De fato, ele foi o papa reinante no momento em que a teologia latina e aquela grega se encontraram. São Leão Magno não se limitou a transmitir a fórmula de Tertulliano, que tinha escrito: “Vemos duas naturezas, não confusas, mas unidas em uma pessoa, Jesus Cristo, Deus e homem”. Foi mais longe, adaptando a fórmula “aos problemas que surgiram nesse meio tempo, entre o concílio de Éfeso do 431 àquele de Calcedônia do 451”.

Padre Cantalamessa observa que o pensamento cristológico do Papa Leão, exposto no Tomus ad Flavianum, encontra-se no cerne da definição de Calcedônia. Cita, portanto, o ponto em que se declara: “Ensinamos por unanimidade que deve-se reconhecer o único e mesmo Filho Senhor nosso Jesus Cristo, perfeito na divindade e sempre o mesmo perfeito na humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem […], gerado antes dos séculos pelo Pai segundo a divindade e nos últimos tempos, por nós homens e para a nossa salvação, gerado por Maria Virgem segundo a humanidade; subsistente nas duas naturezas de modo inconfuso, imutável, indivisível, inseparável, não sendo de forma alguma suprimida a diferença das naturezas por causa da união, pelo contrário, permanecendo preservada a propriedade tanto de uma quanto da outra natureza, elas combinam para formar uma só pessoa e hipóstase”

Na fórmula de Calcedônia, diz o capuchinho, “repousa toda a doutrina cristã da salvação”. De fato, “só se Cristo é homem como nós, o que ele faz, nos representa e nos pertence, e somente se ele mesmo é Deus, aquilo que faz tem um valor infinito e universal”, tanto que, como se canta no Adoro te devote, “somente uma gota do sangue que derramou salva o mundo todo do pecado”. É este um tema sobre o qual o oriente e o ocidente são unânimes.

Santo Anselmo, entre os latinos, e Cabasilas, entre os ortodoxos, apresentam poucas diferenças entre eles quando escrevem que, antes de Cristo, o homem tinha contraído uma dívida infinita com o pecado. Tinha que lutar contra satanás para livrar-se, mas não podia porque era escravo exatamente daquele que deveria vencer. Por outro lado Deus podia expiar o pecado e vencer, mas não tinha que fazê-lo porque não era ele o devedor. Portanto, continua padre Cantalamessa, “era preciso que se encontrassem unidos na mesma pessoa aquele que tinha que lutar e aquele que podia vencer”, e é isso que aconteceu com Jesus, “verdadeiro Deus e verdadeiro homem, em uma pessoa”.

Estas certezas a respeito de Cristo, no entanto, ao longo dos últimos dois séculos foram colocadas em discussões por estudiosos que, a partir de Strauss, procuraram classifica-las como “puras invenções dos teólogos”, com a finalidade de levar adiante uma tese que separava o Cristo do dogma do Jesus de Nazaré da história. Eles diziam que “para conhecer o verdadeiro Jesus da história” era preciso “prescindir da fé nele posterior à Páscoa”.

O pregador da Casa Pontifícia fala das “reconstruções imaginativas” sobre a figura de Jesus proliferadas em um contexto semelhante e adverte: “Não é possível mais em boa fé escrever “pesquisas sobre Jesus” que pretendem ser ‘históricas’, mas prescindem, ou melhor, excluem do do ponto de partida, a fé nele”. De tal forma, continua o capuchinho, há uma mudança em ato que leva o nome de James D.G. Dunn, um dos maiores estudiosos vivos do Novo Testamento. No livro intitulado “Mudar perspectiva sobre Jesus”, Dunn erradica os pressupostos daquela tese que contrapõe o Cristo da fé e o Jesus histórico, citando, entre as várias argumentações, o fato de que “a fé começou antes da Páscoa”, quando os discípulos começaram a seguir a Jesus porque acreditavam nele. Embora imperfeita, se tratava ainda sempre de fé.

Cristo é a base de tudo no Cristianismo, então Pe. Cantalamessa se pergunta: “Se não se tem ideias claras sobre quem é Jesus, que força terá a nossa evangelização?”. Nem a história nem muito menos o dogma conseguem dar-nos o Cristo da realidade, porque a história, transmitida pelos evangelhos, leva a um Jesus “lembrado”, ou até mesmo mediado pela memória dos discípulos, enquanto que o dogma pode levar a uma Jesus “definido”, “formulado”, que difere da fórmula de Calcedônia como a água que bebemos difere da fórmula química H2O.

Como chegar, então, ao “Jesus real” que está “além da história e por trás da definição”? Por meio do Espírito Santo que, lembra o pregador pontifício, permite um conhecimento “imediato” de Cristo e é “a única mediação não mediata’ entre nós e Jesus, no sentido de que não age como um véu, não constitui um diafragma ou um trâmite, sendo ele o Espírito de Jesus, o seu “alter ego”, da sua mesma natureza”. E, continua, “é a Escritura mesma que nos fala deste papel do Espírito Santo com o propósito de conhecer o verdadeiro Jesus. A vinda do Espírito Santo em Pentecostes resulta em uma iluminação repentina de todo o trabalho e pessoa de Cristo”.

Padre Cantalamessa apela, portanto, à ajuda do Espírito Santo para “despertar” o dogma. Do triângulo de São Leão Magno e Calcedônia, pelo qual Jesus Cristo é “uma pessoa em duas naturezas”, o capuchinho toma em consideração o terceiro elemento. O uso moderno do conceito de “pessoa” atribuiu à palavra de origem latina um significado subjetivo e relacional, pelo qual indica “o ser humano em quanto capaz de relação, de estar como um eu diante de um tu”. A fórmula latina “uma pessoa” apareceu portanto, mais fecunda com relação à correspondente grega “uma hipóstase”, porque esta última pode dizer-se de cada objeto existente, enquanto que “pessoa” pode referir-se somente a um ser humano e, por analogia, divino.

Aplicando o discurso para o relacionamento com Cristo, padre Cantalamessa explica que “dizer que Jesus é ‘uma pessoa’ significa também dizer que ressuscitou, que vive, que está diante de mim, que posso tratar-lhe com intimidade como ele a mim. É preciso passar continuamente, no nosso coração e na nossa mente, do Jesus personagem ao Jesus pessoa. A personagem é alguém de quem se pode falar e escrever o que quiser, mas a quem e com quem, no geral, não é possível conversar”. O pregador da Casa Pontifícia introduz portanto um elemento essencial no seu discurso, e afirma que “é possível ter Jesus por amigo, porque, tendo ressuscitado, ele está vivo, está do meu lado, posso relacionar-me com ele como dois seres vivos o fazem, um presente a um presente. Não com o meu corpo e nem mesmo somente com a fantasia, mas ‘no Espírito’ que é também infinitamente mais íntimo e real do que ambos”.

Infelizmente, considera o capuchinho, é raro pensar em Jesus nestes termos, ou seja, como um amigo, um confidente. Esquecemos que, sendo “verdadeiro homem”, Ele “possui em sumo grau o sentimento da amizade que é uma das qualidades mais nobres do ser humano. É Jesus que deseja um tal relacionamento conosco”, não chamando-nos mais servos, mas amigos (cf. Jo 15, 15).

Na sua vida terrena, Cristo estabeleceu relações de verdadeira amizade somente com alguns, embora amasse a todos indistintamente. Agora, como ressuscitado, “não está mais sujeito às limitações da carne” mas, continua padre Cantalamessa, “oferece a cada homem e a cada mulher a possibilidade de tê-lo como amigo, no sentido mais pleno da palavra”. A quarta pregação da Quaresma conclui, portanto, com o desejo de que o Espírito Santo “nos ajude a acolher com maravilha e alegria esta possibilidade que preenche a vida”.

[Trad.TS]

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