Por que o sacerdócio de Cristo é perfeito

O primeiro olhar deste curso foi à realidade natural, antes mesmo da queda: existe um Deus do qual tudo recebemos e ao qual tudo devemos; assim, é da ordem natural das coisas que lhe ofereçamos nossa adoração, súplica e ação de graças. Isso é sacrifício. Como vivemos em sociedade e nos relacionamos com as pessoas, não basta que esse sacrifício seja oferecido individual e privadamente; é necessário que alguém o ofereça a Deus em nome de todos. Então, o culto a Deus deve ser exterior – porque temos corpo – e social – porque não vivemos isolados. Tudo isso é exigido pelo próprio direito natural.

O sacrifício, além disso, é o ato mais perfeito do que chamamos “virtude da religião”. A justiça – dar a cada um aquilo que lhe é devido –, quando exercida para com Deus, é a virtude da religião. Quando o homem, já sendo “nada”, pecou, desceu ainda abaixo do “nada”, estabelecendo um desequilíbrio na Criação e cometendo uma injustiça. Ora, as ofensas se medem, entre outras coisas, pela grandeza da pessoa que é atingida. Assim, ofender a própria mãe é muito mais grave que ofender uma pessoa qualquer; maltratar uma pessoa santa é mais grave que fazê-lo a uma pessoa pecadora; ofender a Deus, então, que nos deu o próprio ser e que rege todo o universo com sua majestade, é coisa tremendamente grave.

Adão e Eva não pecaram por duvidar da existência de Deus. Os dois sabiam que Ele existia. Conforme o relato do Gênesis, o seu pecado foi terem duvidado do amor de Deus. A serpente seduziu Adão e Eva e tentou convencê-los de que Deus os havia enganado. Os dois, por sua vez, acreditaram, esqueceram-se de que a Criação era um “dom” e apropriaram-se indevidamente dela, como Eva, ao tomar o fruto da árvore para comer [1]. Cristo, ao não se “apegar ciosamente” a ser igual em natureza a Deus Pai [2], fez exatamente o contrário, a fim de reparar a apropriação injusta de Eva, figura da humanidade que deveria ser esposa de Deus.

Então, a queda instaura uma desordem na humanidade e, por mais que se queira viver num mundo de fantasias, a realidade do pecado original é muito evidente: cinco minutos de sinceridade bastam para que percebamos que somos incapazes de amar de verdade. Por isso, é imprescindível que Deus venha em nosso auxílio. E, para que isso aconteça, é preciso pedir, rezar com perseverança [3].

Voltando ao sacerdócio de Cristo: um sacerdote é tanto mais perfeito quanto mais estiver unido: a Deus, a quem se oferece o sacrifício; à vítima que é oferecida; e ao povo, pelo qual ela é oferecida.

Quanto à primeira união: Jesus não é somente um ser humano imaculado, sem pecados pessoais e imperfeições; Ele é o próprio Deus. Ele não só é santo, como é a própria santidade. Por esse motivo, os atos realizados pelo coração humano de Cristo têm valor divino. Ninguém pode estar mais unido a Deus que o homem Jesus Cristo, pela união hipostática.

Quanto à segunda união: como já dito, o sacrifício externo só tem sentido enquanto o sacerdote se oferece interiormente junto com a vítima oferecida. O Calvário, exteriormente, é um deicídio. Só que Deus, em Sua providência, se aproveitou do maior pecado que a humanidade poderia ter cometido e transformou-o livremente em amor e sacrifício. Por isso, na Santa Missa, não se revive o pecado de Pilatos, de Herodes e Caifás, não se mata Deus novamente – como Lutero acusava a Igreja de fazer; na Missa, recorda-se a realidade que aconteceu na alma de Cristo, enquanto lhe tiravam a vida, o fato de Ele ter aceitado aquele crime sem nada fazer para detê-Lo.

Quando Jesus é preso e um de seus companheiros desembainha a espada para tentar impedir que O levem, Ele diz-lhe: “Crês tu que não posso invocar meu Pai e ele não me enviaria imediatamente mais de doze legiões de anjos?” [4]. Ou seja, se Cristo quisesse, poderia pedir que o Pai lhe enviasse “mais de doze legiões de anjos” para tirá-lo da morte. Mas, como Ele diz noutro lugar: “Ninguém Me tira a vida; Eu dou-a livremente” [5]. O fato de Cristo ter sido imolado livremente assegura que Ele poderia ter se livrado da Cruz.

Jesus atendia, por assim dizer, aos três requisitos da vítima perfeita: era sem defeitos, precioso e capaz de consumir-se por inteiro, como declarou ao morrer: Consummatum est.

Quanto à terceira união: Jesus está perfeitamente unido a nós não só porque Se fez homem, mas porque, em seu poder soberano, instituiu os Sacramentos, que nos possibilitam participar dos frutos de Sua redenção e nos unirmos mais perfeitamente a Ele. Progredindo no caminho da perfeição, por meio do sacerdote Jesus, então, poderemos dizer: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” [6]. O “não sou eu” significa, ao mesmo tempo, o sacrifício de si mesmo e a pertença a um coletivo chamado Igreja, fora do qual perderíamos nossa identidade e cairíamos no nada.

Por essas três uniões – a Deus, à vítima e ao povo –, o sacerdócio de Cristo é perfeito e não se pode conceber um sacerdócio mais elevado que esse.

Referências

  1. Cf. Gn 3, 6
  2. Cf. Fl 2, 6
  3. Sobre a importância de perseverar na oração, cf.TF n. 162: A Oração Infalível
  4. Mt 26, 53
  5. Jo 10, 18
  6. Gl 2, 20
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