Estar “no mundo” sem ser “do mundo”

Recentemente, falando aos membros das emissoras de televisão católicas da Itália, o Papa Francisco voltou a criticar o que chama de “clericalismo” [1], isto é, limitar a ação dos leigos “às tarefas no seio da Igreja”, ao invés de penetrar “[os] valores cristãos no mundo social, político e econômico” [2]. Na prática cotidiana, seria colocá-los em funções que deveriam ser exercidas ordinariamente pelos sacerdotes, o que terminaria por obscurecer – quando não por eliminar completamente – a distinção entre a hierarquia e os fiéis.

Para evitar esse mal apontado pelo Santo Padre, nada mais importante que conhecer a identidade e a vocação dos leigos. Qual o papel que exercem dentro da Igreja? Ensina o Concílio Vaticano II:

“Por vocação própria, compete aos leigos procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus. Vivem no mundo, isto é, em toda e qualquer ocupação e atividade terrena, e nas condições ordinárias da vida familiar e social, com as quais é como que tecida a sua existência. São chamados por Deus para que, aí, exercendo o seu próprio ofício, guiados pelo espírito evangélico, concorram para a santificação do mundo a partir de dentro, como o fermento, e deste modo manifestem Cristo aos outros, antes de mais pelo testemunho da própria vida, pela irradiação da sua fé, esperança e caridade. Portanto, a eles compete especialmente, iluminar e ordenar de tal modo as realidades temporais, a que estão estreitamente ligados, que elas sejam sempre feitas segundo Cristo e progridam e glorifiquem o Criador e Redentor.” [3]

A partir dessas palavras, é possível perceber a “vocação universal à santidade” na Igreja. Contrariamente a uma mentalidade de senso comum, não são apenas os clérigos que devem ser santos, mas todos os fiéis. O chamado à perfeição, à união com Cristo pelo amor, acontece primeiramente no Batismo. E, deste sacramento, todos podem (e devem) dar testemunho – inclusive os leigos, que estão no mundo, a fim de conquistarem mais almas para Cristo.

Os fiéis estão “no mundo”. Bem antes do Concílio Vaticano II, foi o próprio Jesus quem o observou. Mas, se “eles estão ainda no mundo”, também, assim como Ele, “não são do mundo” [4]. Como se dá isso? Não nasceram os homens – e também os cristãos – de pais e mães desta terra? Como entender, então, que não sejam “do mundo”? É simples: o verdadeiro nascimento do cristão acontece no Batismo. É este sacramento que o torna “de outro mundo”, como diz Jesus a Nicodemos: “Quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus”. E ainda: “Quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus” [5].

Nascidos do alto, pelo batismo, mas colocados “no mundo”, os cristãos são chamados à imitação de Cristo, no meio dos homens. Não é possível, em uma atitude de escapismo, “fugir” do mundo ou da realidade de sofrimento que aflige o homem neste “vale de lágrimas”. Nem foi isso que Cristo pediu. Ainda em sua oração sacerdotal, Ele roga ao Pai: “Não peço que os tires do mundo, mas sim que os preserves do mal” [6]. Este “mal”, define-o Santa Teresa assim: “Nesta vida, só o pecado merece ser chamado de mal, por acarretar males eternos e para sempre. Isso (…) é o que nos deve encher de temor e o que havemos de pedir a Deus em nossas orações” [7].

Cristo passou a maior parte de sua vida humana no ofício de carpinteiro, na presença de seu pai e de sua mãe, aparentemente “oculto”, mas já oferecendo a Sua oblação de coração, que culminaria na Cruz. O próprio Senhor de todo o universo, que lançou sobre Adão e Eva este castigo por seu pecado, veio tirar da terra o seu sustento, com trabalhos penosos [8]. Há dúvida de que, já aqui, ele tomava sobre Si as nossas enfermidades e carregava os nossos sofrimentos [9]? E, se a santidade consiste em seguir o exemplo de Cristo, há dúvida de que é na vida oculta das atividades penosas que devemos nos santificar?

São Josemaría Escrivá, em sua famosa homilia “Amar o mundo apaixonadamente”, dizia que “Deus nos espera cada dia” nas “tarefas civis, materiais, seculares da vida humana”. E salientava:“Há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir” [10].

O grande segredo para descobrir Deus no trabalho está na atitude interior de quem labuta. Qualquer serviço pode converter-se em sacrifício, se feito com o espírito de Cristo. Como ensina São João XXIII:

Todo o trabalho e todas as atividades, mesmo as de caráter temporal, que se exercem em união com Jesus, divino Redentor, se tornam um prolongamento do trabalho de Jesus e dele recebem virtude redentora: ‘Aquele que permanece em mim e eu nele, produz muito fruto’ (Jo 15, 5).” [11]

Que as batalhas travadas de acordo com nossas condições de vida – das quais não podemos fugir – nos façam frutificar e nos tornem, em nossas ocupações, verdadeiros “ministros de Cristo”. Sem confundir a vocação laical com o ministério ordenado, mas comprometendo radicalmente a nossa vida, como diz Santo Agostinho:

“Ó irmãos, quando ouvis o Senhor dizer: ‘Onde estou eu aí estará também o meu ministro’, não deveis pensar somente nos bons bispos e nos bons clérigos. Também vós, a vosso modo, deveis ser ministros de Cristo, vivendo bem, fazendo esmolas, pregando o seu nome e a sua doutrina a quem puderdes, de modo que cada qual, mesmo se pai de família, reconheça dever, também por esse título, um afeto paterno à sua família. Por Cristo e pela vida eterna, ninguém deixe de exortar os seus, e os instrua, exorte, repreenda, demonstrando-lhes sempre benevolência e mantendo-os na ordem; exercerá assim em casa o ofício de clérigo e, de certo modo, o de bispo, servindo Cristo, para com ele permanecer eternamente.” [12]

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências bibliográficas

  1. Discurso aos membros da associação “Corallo”, 22 de março de 2014
  2. Evangelii Gaudium, 102
  3. Lumen Gentium, 31
  4. Jo 17, 11.14
  5. Jo 3, 3.5
  6. Jo 17, 15
  7. Castelo Interior, Primeiras Moradas, 2, 5
  8. Cf. Gn 3, 17
  9. Cf. Is 53, 4
  10. Questões atuais do Cristianismo, 114
  11. Mater et Magistra, 257
  12. Santo Agostinho, Sobre o Evangelho de São João, t. 51, n. 13. Apud Summi Pontificatus, 62
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