O esvaziamento da Igreja Católica

Ao contrário do que alguns podem pensar não falarei aqui de esvaziamento de fiéis. O tema deste texto é o esvaziamento de símbolos dentro da Igreja Católica, que foi um dos motivos pelos esvaziamento de fiéis. Conseguiu compreender? Então vamos lá.

Recentemente o Jô Soares entrevistou o excomungado Padre Beto, e quando entraram no assunto sobre o uso de batina, em determinado momento o entrevistador fala:

“Desculpa, não estou querendo entrar em polêmica. É que eu acho fantástico o simbolo.Eu acho que a Igreja Católica perdeu muito exatamente porque abriu mão de vários símbolos. Porque o que atraí na crença é também a simbologia dessa crença… Os padres ficaram mais laicos que os próprios frequentadores (leia-se fiéis).”

Infelizmente Jô Soares tem uma grande razão no que diz, pois vemos que diante de uma tentativa de “modernização” do catolicismo, retiraram a mística e profundidade de muitas coisas. Para ser mais “acessível”, banalizaram ou deixaram de lado vários aspectos.

A perda da mística e profundidade se deu de forma muito acentuada no século XX, pois havia uma mentalidade de se afastar do “homem medieval” e buscar o “homem racional e moderno”. Não foi à toa que São Padre Pio de Pietrelcina foi perseguido e censurado até mesmo dentro da Igreja, e por parte do alto clero no Vaticano. Muitos não aceitavam mais a experiência mística e espiritual, tudo teria que ter uma explicação científica e racional, ainda que para os Papas a visão fosse outra.

Papa Bento XVI

A situação se agravou com a vinda do Concílio Vaticano II (CVII) – antes que alguém ache que aqui vou criticar o CVII, pode tirar o cavalinho da chuva. Como muito bem já nos apontou o Papa Bento XVI (discurso de 22 de dezembro de 2005), criaram um tal de “espírito do concílio” que serviu como desculpa para “justificar” diversas mudanças que muitos queriam fazer na Igreja, ou mesmo banalizar o que é sacro apenas porque não se acredita mais. Não é culpa do CVII, mas dos que se aproveitaram dele para fazer reformar no que não precisava.

Essa ideia de uma “Igreja nova” foi ampliada de forma absurda, e até hoje é usada como justificativa para se fazer o que quiser, e ao mesmo tempo, não se dar importância ao que verdadeiramente importa, ao essencial. Sob a ideia de uma “nova evangelização” necessária para o mundo moderno, se começa a relativizar o que a Igreja diz. Não é á toa que já ouvi gente dizendo que só vale o que os papas pós-conciliares disseram, descartando inclusive as palavras de São Pio X (papa de 4 de agosto de 1903 à 20 de agosto de 1914). Um grande erro, próprio de quem gosta de escolher aspectos da fé católica para viver e descartar o resto como se estivesse escolhendo produtos no supermercado.

Em uma postagem recente aqui no blog (Fé ou marketing?) eu trouxe um texto de uma palestra de 1977, em que o palestrante discorre sobre algumas mudanças ocorridas na Igreja e que fizeram com que ela perdesse a sua identidade e reduzisse muito a espiritualidade dos atos e símbolos.

Vou citar alguns exemplos que vejo, mas com certeza temos muitos mais (se alguém quiser comentar, fique à vontade):

Traje eclesiástico: não há nenhuma liberação para que sacerdotes não usem as vestes clericais, pelo contrário, há determinação expressa de que se deve usar (para maiores esclarecimentos, leia este texto – Da obrigatoriedade do uso do traje eclesiástico). Mas muitos tem a ideia errada de que se chega mais perto das ovelhas ao se parecer como elas, como se a batina (ou outra veste apropriada) as afugentasse.

Este é um engano terrível. São João Paulo II já pediu aos sacerdotes que tenham coragem de assumir sua vocação, usando o principal instrumento visível:

“A vós e aos sacerdotes, diocesanos e religiosos, eu digo: alegrai-vos de ser testemunhas de Cristo no mundo moderno. Não duvideis em fazer-vos reconhecíveis e identificáveis na rua, como homens e mulheres que consagraram sua vida a Deus. (…) As pessoas têm necessidade de sinais e de convites que levem a Deus nesta moderna cidade secular, na qual restaram poucos sinais que nos lembram do Senhor. Não colaboreis com este excluir a Deus dos caminhos do mundo, adotando modas seculares de vestir ou de vos comportar!” (Discurso em Maynooth, em 1º de outubro de 1979)

O Papa Bento XVI disse uma vez:

“O presbítero é servo de Cristo, no sentido que a sua existência, ontologicamente configurada com Cristo, adquire uma índole essencialmente relacional: ele vive em Cristo, por Cristo e com Cristo ao serviço dos homens. Precisamente porque pertence a Cristo, o presbítero encontra-se radicalmente ao serviço dos homens: é ministro da sua salvação, nesta progressiva assunção da vontade de Cristo, na oração, no ‘estar coração a coração’ com Ele.” (Audiência do dia 24 de junho de 2009)

Lendo esta palavras vejo que quando o sacerdote coloca suas vestes clericais, seja a batina (que acho bela) ou o clegyman, está dizendo a todos: eu sou padre, servo de Cristo e estou a seu serviço. Mesmo que sejam homens iguais a todos, ao mesmo tempo não são, pois neles reside uma graça especial que os diferencia dos demais. Quando querem ser igual a todo mundo, é como se recusassem esta graça, ainda que não seja a intenção.

Como já pediu o Papa Bento XVI:

“É urgente recuperar a consciência que impele aos sacerdotes a estarem presentes, identificáveis e reconhecíveis, tanto pela sua fé, pelas virtudes pessoais como pelos hábitos, cultura e caridade que foi sempre o centro da missão da Igreja.”

A veste clerical ajuda a identificar e reconhecer o sacerdote, que hoje tanto necessita destes sinais visíveis.

Vou trazer um exemplo de como a batina traz a todos uma simbologia diferente de qualquer outra roupa. Uma vez um seminarista que conheci (que hoje é padre) foi pregar um retiro e o tema que ele iria falar era pecado, um tema difícil, ainda mais para jovens que em sua maioria não eram frequentadores da Igreja. Pois bem, ele vai usando a sua batina que chamava a atenção de longe, ainda mais porque ele era bem gordo. Eu perguntei porque ele resolveu colocar a veste (já que não era seu hábito usar), e ele disse que era um instrumento que prenderia a atenção de todos e imporia a seriedade necessária para o tema. Ou seja, não é apenas um pano preto, mas traz consigo toda uma simbologia importantíssima.

Assim, mesmo correndo o risco de contrariar amigos sacerdotes, reitero minha opinião: PARA MIM SACERDOTE TEM QUE USAR BATINA, ou pelo menos o clegyman. E se alguém se interessar por outros elementos importantes da batina, leia este texto – Excelências da Batina.

Liturgia: sobre este tema eu já escrevi muito no blog e você pode conferir clicando aqui –LITURGIA. Mas vou falar de algumas coisinhas que mostram bem a banalização do Sagrado.

Tem gente que acha que a Missa deve ser uma festa, e que a celebração deve ser festiva. Para isso resolveram que a música deve encher os ouvidos e corações, com muitos instrumentos e vozes, belos cantos, alguns até animadinhos demais, incentivando a todos a viver uma experiência emocional forte … o que fez com que em algumas Missas se tornassem o principal atrativo. Não interessa a homilia, as orações (inclusive, se puderem ser cantadas, melhor ainda), o silêncio, etc. O que importa é que a música seja uma grande atração.

Tenho amigos que atuam neste ministério dentro da Missa e muitas vezes fazem belíssimos trabalhos, mas também chegam a esquecer que este não é foco da celebração. A música deve ser apenas um auxílio, e não um acessório essencial. Hoje, para mim, quanto menos barulho melhor, por isso evito celebrações em que os cantos sejam altos.

Ainda, tem gente que gosta de “deixar a Missa mais bonita e emotiva” e coloca música onde não deve na celebração. No ato da consagração do pão e do vinho, em que se transformam em Corpo e Sangue de Cristo, NÃO SE TOCA E NEM CANTA NADA!!!! Por favor, nem mesmo na elevação do cálice com o Sangue de Cristo. É PARA FAZER SILÊNCIO!!!

Por que cometem este tipo de erro? Porque acham que fica bonito, porque acham que é um momento para se adorar a Deus, etc. Ou seja, com base no “espírito do Vaticano II”, acham que podem mudar a previsão litúrgica.

Outro grande problema está em que muitos sacerdotes (e isso eu já vi, mesmo conhecendo vários outros que agem de forma correta) celebram a Missa sem ao menos acreditar no que estão fazendo. É sério, parece brincadeira mas não é. Quer conhecer a fé do sacerdote? Veja ele celebrando a Missa, em especial o zelo que tem no altar. É ali que acontece, em todas as celebrações, um dos grandes milagres de Deus. Não é apenas uma repetição de orações prontas, mas em cada ato há uma profundidade mística e espiritual gigantesca.

Quando vejo um sacerdote que faz tudo de qualquer jeito, que faz brincadeiras especialmente durante o serviço do altar, já sei que a vida espiritual dele está ruim. Deve ter problemas de oração, crise vocacional, crise de fé, ou qualquer outra coisa do estilo. Este tipo de coisa é um grande problema para ele e para a Igreja, como já disse o Papa Francisco:

“O bispo que não reza, o bispo que não escuta da Palavra de Deus, que não celebra todos os dias, que não se confessa regularmente, e o mesmo para o padre que não faz estas coisas, com o tempo, perdem a sua união com Jesus e vivem uma mediocridade que não é boa para a Igreja. Por isso, devemos ajudar os bispos e padres a rezarem, a ouvirem a Palavra de Deus que é o alimento diário, a celebrarem a Eucaristia todos os dias e irem à confissão regularmente. Isto é tão importante porque diz respeito à santificação dos sacerdotes e bispos.” (Audiência geral de 26/03/14)

São João Maria Vianney também já falou sobre isso:

“Quanto é triste um padre que não tenha vida interior. Mas para tê-la, é preciso que haja tranqüilidade, silêncio e o retiro espiritual.”

Não há como se ter uma profunda celebração eucarística se o sacerdote que a está celebrando não crer no que está fazendo, ou pelo menos ter o zelo litúrgico necessário.

Vejo algo que me incomoda em todas as Missas: a imensa maioria das pessoas vai receber a comunhão como se estivesse em uma fila para ganhar uma bala. Não há o menor respeito pelo Cristo presente na hóstia. Por que isso? Vejo três principais motivos:

  1. falta de catequese adequada: por mais que tenha sido explicado quando a pessoa fez o o curso para a 1ª comunhão, não foi o bastante para mostrar a mística do momento.
  1. a postura do sacerdote: quando o sacerdote entrega o Corpo de Cristo de qualquer jeito, como se estivesse dando uma ficha ou uma bala, quem está recebendo entende que “aquilo” que recebe não passa de um pedaço fino de pão. Ao se tratar o Sagrado como algo banal, será entendido como algo banal.
  1. a distribuição da comunhão ser feita diretamente na mão: muitos não sabem mas a regra é que a comunhão seja distribuída na boca do fiel e este esteja de joelhos. A possibilidade de se ministrar na mão e a pessoa de pé é a exceção … mas que acabou “virando regra”.

Se pelo menos voltassem a distribuir a comunhão como deve ser (na boca e o fiel de joelhos), com certeza vamos conseguir voltar a respeitar o Sagrado e resgatar os verdadeiros símbolos que foram banalizados na Igreja.

Sim, é verdade que a Igreja precisa sempre estar atualizada aos novos tempos, mas com para atingir esta meta não se deve sacrificar o que lhe é essencial e faz parte de sua identidade mais profunda.

O Papa Francisco disse que a Igreja deve tomar cuidado para não se tornar uma ONG, ou seja, temos que evitar que se torne uma instituição sem a correta espiritualidade e mística. Se isso ocorre, não passaremos de repetidores de atos com discursos vazios. Precisamos urgentemente retornar ao caminho espiritual e místico da Igreja, em que levamos o Cristo Ressuscitado, cremos na sua existência e na sua ação, bem como vivenciamos a fé como deve ser feito.

Precisamos de sacerdotes (e bispos) com coragem de mostrar ao mundo que são diferentes, tanto em ações como nos símbolos visíveis. Precisamos de leigos comprometidos que não sejam apenas “papagaios de piratas” que ficam repetindo e jogando informações, mas que antes de tudo vivam a sua fé com toda a espiritualidade possível. Precisamos de sacerdotes e leigos que queiram viver a liturgia como ela deve ser vivida, e pratica-la de forma profunda.

A Igreja passa por uma grande crise em virtude desta perda dos símbolos, que se refletem na liturgia, catequese e ações pastorais, mas também afeta muito a identidade mística e espiritual da Igreja e seus membros. Isso só se combate com oração, vivência litúrgica e estudo da doutrina e magistério.

Via André Brandalise (blog)

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