Catolicismo e religiões não-católicas

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Em síntese: O Encontro de Oração de Assis (27/10/86) foi a aplicação concreta dos dizeres da Declaração Nostra Aetate do Concílio do Vaticano II  relativa às religiões não-cristãs. O Concílio reafirmou a obra redentora  de Jesus Cristo com única e definitiva a necessidade de que todos os homens se incorporem à Igreja fundada por Cristo como sacramento primordial da salvação. Além disto, porém, reconheceu o que haja de verdadeiro e santo fora do Catolicismo; são lampejos daquela Verdade que ilumina todo homem (cf. Jo 1,9). Na verdade, existe o senso religioso congênito em todo ser humano, segundo o qual os povos reconhecem a existência de Deus ou do Transcendental, a quem se dirigem espontaneamente em oração. Ora foi na base dessa religiosidade natural que o S. Padre João Paulo II quis convidar chefes religiosos não-cristãos a fim de jejuarem e orarem em Assis pela paz mundial. Não houve debate teológico nem tentativa de procurar  um mínimo denominador comum de todos os Credos; nem sequer foi redigido um formulário único de orações. Ficou assim afastada qualquer aparência de sincretismo; no momento culminante da Jornada, cada grupo proferiu a sua prece, enquanto os demais assistiam em silêncio. Assim foi dado um passo importante para a aproximação dos homens entre si, com respeito à identidade de cada Credo, não porque todos os Credos sejam equivalentes entre si, mas porque  todos têm sua base comum no senso religioso inato em todo homem.

O Encontro de Oração promovido pelo S. Padre João Paulo II em Assis (27/10/86) tem suscitado debates: o fato de se haverem reunido representantes de crenças religiosas monoteístas, panteístas e politeístas para rezar (cada grupo a seu modo) na mesma assembléia pareceu a alguns significar que o Catolicismo admite hoje o relativismo das proposições religiosas ou o indiferentismo religioso. Ora, deve-se dizer que a iniciativa-convite do S. Padre não é senão uma aplicação dos dizeres da Declaração Nostra Aetate do Concílio do Vaticano II sobre as religiões não-cristãs; para manter contato com os responsáveis destas diversas crenças, a Santa Sé fundou, após o Concílio, o Secretariado para o Diálogo  com as Religiões  Não-Cristãs.

A atitude aberta da Igreja frente a outras correntes religiosas tem levado teólogos a posições exageradas a respeito da validade das mesmas para a salvação  eterna. Vamos, a seguir, enunciar  o problema que as novas teorias suscitam e fixar as linhas-mestras do pensamento católico a propósito.

O problema

1. Há quem diga que “a presença salvífica de Deus é mais ampla do que os seres humanos e a Igreja”. Por  conseguinte, as religiões não-cristãs seriam “caminhos de salvação incluídos positivamente no plano salvífico de Deus”; nelas estaria atuando a graça de Cristo, de  modo que aqueles que aí se salvem, conseguiram a salvação pela graça de Cristo, “causa constitutiva” dos bens definitivos; todavia os adeptos de tais crenças religiosas ignoram, diz Karl Rahner, a ação  mediadora de Cristo, de modo que são “cristãos anônimos”, chamados, porém, a tornar-se cristãos explícitos, plenamente integrados na Igreja.

2. Outros teólogos vão mais longe. Consideram as religiões não cristãs como vias de salvação  independentes  umas das outras e de Cristo. O Senhor Jesus não seria a causa constitutiva da salvação nem a Igreja seria necessária. A finalidade desta seria apenas a de revelar e promover o Reino de Deus, que se vai formando na terra desde o primeiro instante da criação. Ora, Deus pode ter algo a dizer ou realizar além do que foi dito e efetuado por Cristo; em conseqüência, os cristãos entram em diálogo com outras correntes religiosas não só para ensinar, mas também para aprender o que eles nunca aprenderam. Contudo dizem tais teólogos – Cristo é a revelação final de Deus e, por isto, é normativo para todas as religiões: embora Cristo não seja a causa constitutiva da salvação, Ele é a norma segundo a qual as religiões devem aferir a sua validade, e o termo final em que elas encontram a sua consumação. Cristo não está no interior das religiões não-cristãs, mas está acima delas, como norma definitiva e
“catalisador crítico”. Por conseguinte, é possível salvar-se fora da Igreja, mas não fora de Cristo. Tal é a posição de Hans Küng.

3. Outros ainda se atiram mais longe. Afirmam que o Cristianismo se coloca simplesmente ao lado das outras crenças religiosas e que Jesus tem, para a salvação, a mesma importância que os fundadores de outras religiões. Assim descreve tal posição P. Knitter no artigo La teologia cattolica delle religioni a  un crocevia, na revista Concilium XXII (1/1986), pp. 138-140):

“Tais teólogos estão promovendo um modelo teológico que vê Cristo juntamente  com outras religiões e outras figuras religiosas. Insistem em dizer que é possível/provável que, com Cristo e o Cristianismo, outras tradições tenham a sua validade própria e independente e o seu lugar ao sol. Como sugere o mito da torre de Babel, o pluralismo pode ser vontade de Deus. A verdade pode não estar ligada à unidade (Pannikar). Mais concretamente: … pode acontecer que  o budismo e o hinduísmo sejam tão importantes para a história da salvação quanto o Cristianismo e que outros mestres e salvadores sejam tão importantes quanto Jesus de Nazaré.

Pode-se dizer  que esta nova perspectiva é a etapa mais recente de uma evolução natural no interior da Teologia católica das religiões; essa evolução passaria do  eclesiocentrismo (Cristo/Igreja contra as religiões) ao Cristocentrismo (Cristo dentro ou acima das religiões) e, finalmente, ao Teocentrismo. O centro da história da salvação e ponto de partida para o diálogo inter-religioso seria não mais a Igreja (como necessária à salvação), nem Cristo (como normativo para a salvação), mas Deus como Mistério Divino”.

Os fiéis católicos que adotam tais teorias recentes, perdem o seu zelo missionário ou o interesse pela conversão dos não-católicos à fé da Igreja; perguntam: “Se os homens se salvam também em outras correntes religiosas, qual a necessidade de crer em Cristo e de pertencer à Igreja? Qual o papel de Cristo e da Igreja na obra de salvação dos homens?” Com outras palavras: “Se a graça de Deus age nas outras correntes religiosas e salva os que lhes aderem com sinceridade e boa fé, por que deveria a Igreja interessar-se pela conversão  dos não-cristãos ao Cristianismo?” – Tais indagações deixam muitas pessoas inquietas e exigem esclarecimentos  seguros.

O plano divino de salvação

Podemos resumir em cinco proposições a doutrina católica referente à salvação:

“Deus quer que todos os homens sejam salvos” (1Tm 2,3s)

São palavras do Apóstolo:

“Deus nosso Salvador quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,3s). Algo de semelhantese lê 2Pd 3,9: “O Senhor não tarda a cumprir a sua promessa, como pensam alguns, entendendo que há demora; ele está usando de paciência para convosco, porque não quer que alguém se perca, mas que todos venham a converter-se”.

No Evangelho o Senhor manifesta sua vontade salvífica universal quando se despede dos Apóstolos:

“Ide e fazei que todas as nações se  tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei. E eis que estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt 28,19s; cf. Mc 16,15s).

Já os profetas do Antigo Testamento apregoavam esse mesmo desígnio salvífico válido para todos os povos:

“Dias virão em que o monte da casa do Senhor será estabelecido no mais alto das montanhas e se alçará acima de todos os outeiros. A ele acorrerão todas as nações; muitos povos virão dizendo: “Vinde, subamos ao monte do Senhor, à casa do Deus de Jacó, para que ele nos instrua a respeito dos seus caminhos e assim andemos nas suas veredas”. Com efeito, de Sion sairá a Lei, e de Jerusalém a palavra do Senhor. Ele julgará as nações, corrigirá muitos povos. Estes quebrarão as suas espadas, transformando-as em relhas, e as suas lanças, a fim de fazerem podadeiras. Uma nação não  levantará a espada contra outra, nem aprenderão mais a fazer guerra. Ó casa de Jacó, vinde, andemos na luz do Senhor!” (Is 2,2-5).

No livro do profeta Isaías, o Servidor de Javé é chamado a levar a salvação de Deus até as extremidades da terra (cf. Is 49,6). Jonas foi enviado a pregar aos habitantes de Nínive pagã, a  fim de que se convertessem e salvassem  (cf. Jn 3, 1-10).

Essa vontade salvífica de Deus não é meramente teórica; ao contrário, implica que o Senhor dê a todos os homens os meios ou a graça para libertar-se do pecado e das suas conseqüências, chegando assim a receber uma vida nova, que os põe em comunhão com o próprio Deus. Ninguém se salva  por suas próprias forças, mas tão-somente por graça de Deus.

2.2. O desígnio salvífico de Deus se exerce por Jesus Cristo e somente por Jesus Cristo

Jesus é o Salvador (…), e o único Salvador. Eis duas proposições muito claras nas fontes da fé.

a) “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores”, afirma São Paulo (1Tm 1,15). Ele “veio para procurar e salvar o que se perdera” (Lc 19,10). “Como pela desobediência de um só homem todos foram feitos pecadores, assim também pela obediência de um só todos são justificados” (Rm 5, 19). Ainda afirma o Apóstolo: “Todos pecaram e estão privados da glória de Deus, mas são justificados gratuitamente pela sua graça, em virtude da redenção realizada por Jesus Cristo” (Rm 3,23s).

b) Jesus não é um Salvador, ao lado de Buda, Moisés, Zaratustra, Lao-Tse, Confúcio, Maomé (…). Como os demais homens, também estes chefes religiosos precisam da salvação que vem de Jesus vCristo. Este é a Porta, que dá acesso ao rebanho de Deus: “Eu sou a Porta; se alguém entra por mim, será salvo” (Jo 10,9).

Por isto São Pedro pôde professar diante do Sinédrio: “Em nenhum outro (se não em Jesus) há salvação; com efeito, não foi dado outro nome aos homens debaixo do céu, pelo qual possamos ser salvos” (At 4, 12).

c) Jesus, único Salvador, é também o Salvador definitivo: a salvação trazida por Ele não será substituída por nenhuma outra dispensação da graça: “Ninguém vai ao Pai senão por mim”, pois Jesus “é o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). É São Paulo quem escreve: “Há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, que se deu em resgate por todos” (1Tm 2,5s).

A posição de Jesus como Salvador não se deriva da grandeza da sua personalidade humana nem da profundidade da sua mensagem, mas do fato de que Ele é o Filho de Deus feito homem. Jesus não é  simplesmente um grande profeta ou um chefe dinâmico nem um místico ardoroso, penetrado do senso de Deus mais do que os outros mestres; Ele ultrapassa todas estas categorias, visto que é o próprio Deus manifestado na carne humana.

2.3. A salvação obtida por Cristo pressupõe o Batismo e certa forma de pertença à Igreja instituída por Jesus e confiada a Pedro

Na verdade, ninguém pode entrar no Reino de Deus se não nasce da água e do Espírito Santo (cf. Jo 3,5), isto é, se não recebe o Batismo, que incorpora o fiel ao novo povo de Deus, que é a Igreja: “Ide por todo o mundo, e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem e for batizado, será salvo, mas quem não crer será condenado” (Mc 16, 15s). Por isto o Concílio do Vaticano II “ensina, apoiando-se sobre a S. Escritura e a Tradição, que esta Igreja peregrina é necessária à salvação” (Constituição Lumen Gentium nº 14). Mais explicitamente diz o Concílio:

“Somente Cristo presente para nós em seu Corpo, que é a Igreja, é o Mediador e a via da salvação; ora, Ele, inculcando expressamente a necessidade da fé e do Batismo, confirmou também a necessidade da Igreja, na qual os homens entram mediante o Batismo como por uma porta” (Constituição Lumen Gentium nº 14).

Eis, porém, que a obrigação de pertencer à Igreja só se impõe àqueles que conhecem a Igreja e sabem que é, por disposição divina, necessária à salvação. Diz o Concílio:

“Não podem salvar-se aqueles que, sabendo que a Igreja  Católica foi fundada por Deus mediante Jesus Cristo como instituição necessária, apesar disto não querem entrar nela ou nela  perseverar” (Const. Lumen Gentium nº 14).

Tal caso parece raro; identifica-se com o pecado contra o Espírito Santo, que é a recusa explícita e consciente da graça de Deus. Muito mais freqüente é o caso daqueles que, sem culpa (por falta de adequada instrução religiosa), ignoram sentido do Evangelho e da Igreja. Estes não têm em consciência a obrigação de aderir à Igreja para salvar-se; o Senhor Deus não lhes pede o que eles não podem dar; salvar-se-ão se procurarem sinceramente fazer a vontade de Deus como a conhecem, mesmo permanecendo fora da Igreja visível. São palavras do Concílio:

“Aqueles que, sem culpa, ignoram o Evangelho de Cristo e sua Igreja mas buscam a Deus de coração sincero e tentam, sob o influxo da graça, cumprir por obras a Sua vontade conhecida através do diante da consciência, podem conseguir a salvação eterna. E a Divina Providência não nega os auxílios necessários à salvação àqueles que sem culpa ainda não chegaram ao conhecimento expresso de Deus e se esforçam, não sem a divina graça, por levar uma vida reta. Tudo o que de bom e verdadeiro se encontra entre eles, a Igreja julga-o como preparação evangélica, dada por Aquele que ilumina todo  homem, para que tenha a vida” (Const. Lumen Gentium nº 16).

Estas palavras se aplicam até aos ateus que de boa fé estejam no ateísmo. Educados em ambiente hostil à religião, só conhecendo caricaturas de Deus e do Evangelho, muitos cidadãos dos países comunistas podem dizer-se ateus simplesmente por não conhecerem a verdadeira face de Deus; não obstante, pode-se admitir que em alguns casos haja uma consciência sincera, capaz de se sacrificar em prol da verdade que conhecem, em prol do bem, da honra, da fidelidade, da responsabilidade, etc. Só não são crentes, porque nunca lhes foi proposta a autêntica imagem de Deus. Esses podem salvar-se com a graça de Deus, mediante o sangue de Cristo e pelo sacramento da Igreja.

Essa mediação da Igreja, “corpo prolongado de Cristo” (cf. Cl 1,24), pode ser visível ou invisível. Visível… no caso dos fiéis que explicitamente pertencem à Igreja. Invisível (…), no caso dos que não professam a mesma fé ou não obedecem aos mesmos pastores; estes, desde que estejam sinceramente de boa fé em sua posição filosófico-religiosa, pertencem invisivelmente à Igreja, pois são atingidos, sem o saber, pela salvação  que passa pela Igreja; a fé ensina que Cristo Redentor e sua Igreja, confiada a Pedro e seus sucessores, são inseparáveis um do outro.

Com outras palavras pode-se ainda dizer: todos os homens que se salvam, salvam-se mediante o Batismo ministrado  por Cristo e pela Igreja. Todavia distinga-se:

1) O Batismo de água, recebido por quem pertence visivelmente à Igreja;

{explícito: no caso dos catecúmenos que morram antes do Batismo de  água;

2) Batismo de desejo:

implícito: tal é o caso das pessoas que, embora ignorem a necessidade do sacramento do Batismo, vivem tão reta e sinceramente que, se conhecessem a instituição do Batismo por parte do Senhor Deus, logo o pediriam. Tais pessoas esforçam-se por corresponder em tudo às inspirações de Deus, tais como as podem captar.

Mais de uma vez, o Concílio do Vaticano II incutiu a posição singular da Igreja Católica entre todas as demais comunidades religiosas. Assim a própria Declaração sobre a Liberdade Religiosa enfatiza:

“Professa em primeiro lugar o Sacro Sínodo que o próprio Deus manifestou ao gênero humano o caminho pelo qual os homens, servindo a Ele, pudessem salvar-se e tornar-se felizes em Cristo. Cremos que essa única e verdadeira Religião subsiste na Igreja Católica e Apostólica, a quem o Senhor Jesus confiou a tarefa de difundi-la aos homens todos, quando disse aos apóstolos: “Ide, pois, e ensinai os povos todos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-lhes a guardar tudo quanto vos mandei” (Mt 28, 19s). Por sua vez, estão os homens todos obrigados a procurar a verdade, sobretudo aquela que diz respeito a Deus e à sua Igreja e, depois de conhecê-la, a abraçá-la e a praticá-la” (Declaração Dignitatis Humanae nº 1).

O mesmo se lê na Constituição Lumen Gentium:

“Esta é a única Igreja de  Cristo, que no Símbolo confessamos una, santa, católica e apostólica; que nosso Salvador, depois da sua ressurreição, entregou a Pedro para apascentar (Jo 21,17) e confiou a ele e aos demais apóstolos para a propagar e reger (cf. Mt 28, 18-20), erguendo-a para sempre como coluna e fundamento da verdade (cf. 1Tm 3,15). Esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como uma sociedade, subsiste na Igreja  Católica governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele, embora fora de sua visível  estrutura se encontrem vários elementos de santificação e verdade. Estes elementos, como dons próprios à Igreja de Cristo, impelem à unidade católica”  (nº 8).

O verbo subsiste ocorrente nos dois textos acima quer dizer que a Igreja de Cristo se encontra, com todos os seus elementos essenciais e santificadores, na Igreja Católica confiada a Pedro e seus sucessores; ao lado desta, existem comunidades eclesiais que possuem elementos da Igreja (a Bíblia, o Batismo, a oração, o espírito de mortificação…), mas não os possuem todos; nelas a Igreja de Cristo só pode existir imperfeita ou incompleta.

2.4. Em consequência toca à Igreja Católica o dever missionário de anunciar o Evangelho

É o que declara o Decreto Ad Gentes sobre a ação missionária da Igreja:

“O motivo dessa atividade missionária está na vontade de Deus, que “quer que todos os homens sejam salvos e venham ao conhecimento da verdade. Porque um é Deus, um é também o mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que se entregou  para a redenção  de todos” (1Tm 2,4s). “E em nenhum outro há salvação”  (At 4,12). É necessário que pela pregação da Igreja todos O reconheçam e a Ele se convertam e pelo Batismo sejam incorporados nele e na Igreja seu Corpo. Cristo mesmo por sua vez, inculcando com palavras expressas a necessidade da fé e do Batismo, ao mesmo tempo confirmou a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pelo Batismo como por uma porta… Por isto a atividade missionária hoje como sempre conserva íntegra a sua força e necessidade” (nº 7).

Pregar o Evangelho a quem não o conhece, é dever de caridade fraterna que incumbe a todo fiel católico, pois o Pão da Palavra que leva à vida eterna, ainda é mais necessário do que o pão de mesa. Não se confunda essa ação missionária com proselitismo. Este consiste em violentar a consciência dos ouvintes, constrangendo-os a abraçar a fé cristã mediante promessas de emprego, assistência médica, escola, etc. É indigno do pregador aumentar o número de seus seguidores mediante tais recursos, que exploram a indigência dos irmãos e os violenta; as verdades da fé hão de ser apregoadas com clareza e amor, de modo que os ouvintes as possam perceber e, se quiserem, livremente abraçar. Também não se deve confundir a pregação missionária com dominação cultural; o fato de que alguém transmite a verdade a seu semelhante, não lhe dá o direito de o dominar, como também não se torna dominador aquele que alfabetiza ou comunica traços de civilização universal.

2.5. A Igreja Católica reconhece a existência de autênticos valores religiosos fora do Catolicismo.

Esta afirmação fundamenta-se sobre duas observações:

1) Existe uma religiosidade natural congênita em todo e qualquer ser humano: assim todos reconhecem com certa facilidade a existência de Deus ou do Mistério e do Transcendental; todos são propensos a invocar a Divindade, especialmente nos momentos de tributação; todos têm uma consciência moral (ainda que rudimentar), a qual é a voz de Deus, pronta a denunciar o pecado e a exaltar a virtude; em geral, os povos professam também o amor ao próximo, principalmente aos mais necessitados (existe uma compaixão natural)… Daí surgem diversas formas de culto religioso natural (sem dúvida, mescladas de aberrações em muitos casos).

2) Alguns grupos religiosos ultrapassam a religiosidade meramente natural e professam elementos da religião revelada. Assim os judeus, que têm os livros do Antigo Testamento e a expectativa do Reino de Deus em sua plenitude. Assim também os muçulmanos, que reconhecem traços e figuras do Antigo e do Novo Testamento: o patriarca Abraão, Moisés, Jesus Cristo (embora só o considerem como Profeta), Maria Santíssima, a total submissão a Deus (Islã significa submissão).

Declara o Concílio:

“A Igreja Católica nada rejeita do que há de verdadeiro e santo nessas religiões (não católicas). Considera ela com sincera atenção aqueles modos de agir e viver, aqueles preceitos e doutrinas. Se bem que em muitos pontos estejam em desacordo com os que Ela mesma tem e anuncia, não raro, contudo, refletem lampejos daquela Verdade que ilumina todos os homens (cf. Jo 1,9)…

Exorta por isto seus filhos a que, com prudência e amor, através do diálogo e da colaboração com os seguidores de outras religiões, testemunhando sempre a fé e a vida cristãs, reconheçam, mantenham e desenvolvam os bens espirituais e morais, como também os valores sócio-culturais que entre eles se encontram” (Declaração Nostra Aetate nº 2).

É à luz destas proposição que repassamos

O Encontro de Assis

Tal assembléia reuniu, pela primeira vez na história, representantes da Igreja Católica, de outras comunidades cristãs e das principais religiões do mundo inteiro, a fim de se dedicarem ao jejum e à oração em prol da paz mundial.

É de notar que o Encontro de Assis não discutiu doutrinas. Não tentou encontrar um mínimo denominador comum de todos os Credos. Mas baseou-se no fato – eloqüentemente comprovado pela história das religiões – de que todo e qualquer homem, além de ser homo faber, homo ludens, homo sapiens, é também homo religious…, homem que acredita numa Realidade absoluta e que tem por experiência fundamental a experiência do Sagrado. Foi em função esta dimensão comum e fundamental que os homens se reuniram em Assis; a oração é a expressão mais espontânea e universal dos anseios religiosos do ser humano, anseios que a Declaração Nostra Aetate assim descreve:

“Por meio de religiões diversas procuram os homens uma resposta aos profundos enigmas para a condição humana, que tanto ontem como hoje afligem intimamente os espíritos dos homens, quais sejam: que é o homem, qual o sentido e o fim de nossa vida, que é bem e que é pecado, qual a origem dos sofrimentos e qual sua finalidade, qual o caminho para obter a verdadeira felicidade, que é a morte, o julgamento e a retribuição após a morte e, finalmente, que é aquele supremo e inefável mistério que envolve nossa existência, donde nos originamos e para o qual caminhamos” (nº 1).

Para evitar toda aparência de ecleticismo e por respeito aos diversos Credos, não houve uma fórmula única de oração, mas cada grupo rezou a seu modo em presença dos demais. No ponto culminante do Encontro de Assis, ou seja, na tarde de 27/10/86, houve especial empenho por evitar todo sincretismo: na praça adjacente à Basílica inferior de São  Francisco, foi colocado um estrado, ao qual tiveram acesso sucessivamente os diversos grupos religiosos, a fim de proferir a sua oração; os demais representantes religiosos, dispostos em semicírculo, assistiam em silêncio. Assim foram mantidas as diferenças num clima de aspirações convergentes e expressões similares. Deu-se um passo inédito no sentido de aproximar os homens entre si, salvaguardada a identidade religiosa de cada qual – o que está bem na linha do diálogo religioso preconizado pelo Concílio do Vaticano II.

Em vez de recear, possam os fiéis católicos regozijar-se por quanto se deu na memorável Jornada de 27/10/86!

***

Neste artigo muito nos servimos do Editorial Salvezza in Cristo e le religioni non cristiane, de La Civiltà Cattolica, 07/02/1987, nº 3279, pp. 209-221.

Via site Cléofas

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