Por que tanta animosidade contra o catolicismo?

Após seu encontro com João Paulo II, em junho do mesmo ano, Putin declarou ante os diretores de jornais italianos: “Os ortodoxos sofreram décadas de perseguições sob o comunismo, sentem-se fracos e temem a competição dos católicos”. Por sua vez, o presidente da Rússia precisa do apoio do Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa e, em particular, do Patriarca de Moscou, para fortalecer seu domínio político. De fato, logo após sua ascensão ao poder, comentava-se na capital russa: “Putin precisa de Alexis II [o Patriarca], e Alexis II precisa de Putin”.

E tal aliança funciona. Em Pskov, cidade vizinha à Estônia, o sacerdote católico Krystof Karolwski obteve permissão para construir uma nova igreja, tendo-se iniciado os trabalhos para tal em 3 de março último. Logo que soube disso, o bispo ortodoxo da cidade escreveu a Putin e ao governador da região, pedindo que eles  fizessem “o possível para impedir o triunfo, na terra santa de Pskov, dos destruidores de nossa Pátria e do nosso povo, o Papa de Roma e o catolicismo, inimigo do povo russo”. Em 3 de abril, o chefe dos serviços técnicos da cidade ordenou a suspensão dos trabalhos.

Depois que o Vaticano anunciou a visita de João Paulo II à vizinha Ucrânia –  país de maioria ortodoxa, mas em cuja região ocidental os católicos constituem maioria e conseguiram recuperar as igrejas que Stalin tinha entregue, à força, aos cismáticos , o líder nacionalista Vladimir Jirinovski, vice-presidente do Parlamento russo, obteve, com os votos favoráveis do Partido Comunista, que uma comissão parlamentar solicitasse ao Ministério das Relações Exteriores um informe sobre a visita papal e o renascimento dos católicos na região. O objetivo declarado do informe era analisar as medidas necessárias para impedir a expansão do catolicismo na Rússia e em outros Estados de maioria ortodoxa.

I.O.: ideologia substituta do marxismo

Em importante intervenção no Sínodo de Bispos Europeus, realizado no Vaticano em 1999, a Sra. Irina Ilovaiski Alberti – hoje falecida, mas outrora colaboradora de Soljenitzin e editora da conhecida revista “La Pensée Russe”– explicou as razões desse clima de perseguição:“O número de crentes que praticam sua fé oscila entre 2 e  3% da população russa aproximadamente. A Igreja Ortodoxa russa não esperava a queda do comunismo […],e sobretudo está sujeita a  uma terrível tentação: deixar-se manipular e converter-se numa espécie de ideologia de substituição do marxismo-leninismo”.

Nesse sentido, convém lembrar a declaração do jornalista Alexey Bukalov, correspondente em Roma da agência Itar-Tass, a mais importante da Rússia: “até hoje, nenhuma autoridade russa se tem arrependido dos crimes cometidos contra seu próprio povo”;[…] “a hierarquia da Igreja Ortodoxa russa não tem admitido, por certo, os pecados implícitos na sua colaboração com o Estado soviético”.

Missionários presos e condenados pelo comunismo russo.

O renascer católico nas estepes

A colaboração prestada ao regime comunista, durante 70 anos, fragilizou profundamente a Igreja Ortodoxa junto ao povo russo. Pelo contrário, a minoria católica, martirizada pela dura perseguição stalinista, é objeto de crescente interesse e até de simpatia por parte da população. Dom Joseph Werth, bispo da Sibéria ocidental, oferece uma prova recente disso: “Em abril, 2000 ortodoxos organizaram manifestações anticatólicas numa dúzia de cidades. Apesar dos apelos das paróquias ortodoxas, a população não quis sair em massa nas ruas para protestar contra a presença católica”.

Uma presença que muitos russos consideram benfazeja, porquanto em torno das paróquias católicas floresce ademais significativo número de obras caritativas, como orfanatos, dispensários, asilos, refeitórios populares etc.

Pretensão cismática: um “território canônico”

Segundo o Patriarcado ortodoxo de Moscou, a criação de novas dioceses católicas, por ato recente de João Paulo II, é uma agressão à Igreja Ortodoxa, porque confirmaria o intuito católico de dividir espiritualmente o povo russo, através de um “proselitismo” que visaria atrair a população em geral. Para o Patriarcado, a Igreja Católica deveria restringir seu trabalho pastoral à assistência religiosa das minorias étnicas tradicionalmente católicas: poloneses, alemães, lituanos etc., deportados para os gulags (complexos de campos de concentração) da Sibéria e alhures.

Uma organização fantoche, a União de Cidadãos Ortodoxos da Rússia, anunciou uma campanha de resistência à “expansão católica” e à “agressão espiritual do catolicismo”, convocando a população para um protesto em frente à Nunciatura Apostólica em Moscou.

 Tentando acalmar a tormenta, o Vaticano divulgou um documento assinalando que, na Rússia, “os novos católicos provêm sobretudo de ambientes habitualmente afastados de toda religião”, e não de conversões de cismáticos. Em tom mais enérgico, Dom Tadeusz Kondrusiewicz, em sua primeira declaração como Arcebispo Metropolita da arquidiocese da Mãe de Deus, em Moscou, exprimiu sua preocupação pela “ingerência nas questões internas da Igreja Católica na Rússia” e desafiou a hierarquia ortodoxa a precisar o que ela entende por proselitismo.

O cardeal Walter Kasper publicou na Civiltà Cattolica, reputada revista jesuíta de Roma, um artigo intitulado “As raízes teológicas do conflito entre Moscou e Roma”. Nele, o purpurado acusa a Igreja Ortodoxa Russa de promover uma “heresia eclesiológica” ao defender o falso princípio do “território canônico”. Segundo esse princípio, a Igreja não seria de fato universal, mas um agregado de igrejas nacionais autocéfalas, cada qual dona de um território e identificada tanto com os cidadãos de um Estado quanto com os fatores étnicos de sua cultura, no seu sentido mais “chauvinista”. O próprio Patriarca Alexis admitiu esse princípio no último concílio mundial russo, ao dizer: “A ortodoxia russa é profundamente nacional”.

Em outros termos, o conceito de “território canônico” é a aplicação moderna do famigerado princípio cujus regio, ejus religio, imposto na Alemanha do século XVI, segundo o qual os súditos deveriam adotar a religião de seu príncipe. A versão democrática e nacionalista do mesmo princípio seria hoje: “uma nação, uma Igreja”. Em virtude dele, qualquer apostolado “não étnico” passa a ser um ato hostil de “proselitismo” em detrimento da igreja nacional, que seria “proprietária” de todos os habitantes étnicos de seu território, inclusive dos ateus.

O Cardeal Kasper, pelo contrário, afirma que “a Igreja Católica é uma Igreja universal, à qual foi confiada uma missão universal, com base nas palavras do Senhor ressurrecto: ‘‘Ide e evangelizai todas as nações’ (Mt 28, 19)”. Colocando o dedo na chaga, ele conclui: “A Igreja Ortodoxa percebe sua própria fraqueza pastoral e evangelizadora, e teme por isso  uma presença católica essencialmente mais eficaz a nível pastoral”.

À  falta de argumentos, a força bruta

A resposta do Patriarcado de Moscou veio em forma de carta do metropolita Kiril, responsável pelos assuntos externos, dirigida conjuntamente ao Cardeal Kasper e ao Metropolita Kondrusiewicz. Insistindo no ponto de que a criação de dioceses foi “um insulto à dignidade” da Igreja cismática russa e um passo que “cria um sistema de concorrência, e portanto de confrontação” com ela, o metropolita reafirma que a missão pastoral da Igreja Católica em solo russo constitui um vulgar proselitismo.

À falta de argumentos convincentes na questão do“território canônico”, o documento limita-se a afirmar que a divisão canônica do território era já uma prática da Igreja primitiva, e a acusar Roma de voltar a uma “eclesiologia das Cruzadas”, estabelecendo no Leste uma hierarquia católica paralela (como se os cismáticos não tivessem dioceses e catedrais suas no Ocidente…).

Consciente da fraqueza de suas posições teológicas e de sua ineficácia missionária, os líderes da igreja cismática russa optaram pelo argumento dos perdedores: o emprego da força, com a cumplicidade de um Estado dirigido por um ex-agente da KGB.

O drama do rebanho católico na Rússia

O intercâmbio de declarações e artigos foi, de fato, acompanhado da seqüência inexorável de expulsões, que infelizmente estão longe de cessar. Pois, como denunciou Dom Joseph Werth, existe uma “lista negra” de mais de uma dúzia de sacerdotes católicos estrangeiros que serão expulsos proximamente.

Ante o fracasso de suas iniciativas junto aos órgãos do poder russo, o Arcebispo Tadeusz Kondrusiewicz lançou, de Moscou, um apelo aos católicos do mundo inteiro e às associações de defesa dos direitos do homem. Eis os trechos mais relevantes de seu premente apelo:

Está em curso, diante de nossos olhos, o drama da Igreja Católica na Rússia, a qual, depois de ter suportado as cruéis perseguições do século XX, que a tinham destruído quase por completo, após um decênio de fatigante reconstrução é submetida a novas provas.

“Nestes últimos tempos está-se desenvolvendo no país uma campanha anticatólica em todas as frentes: manifestações e organizações de piquetes, proibições de construir igrejas, atos de vandalismo e profanações de edifícios para o culto, difusão mitificada do ´católico inimigo’ etc. Os católicos russos suportam as dores que lhes são infligidas, com a oração e a temperança cristã.

“A dura realidade nos lança para trás, aos tempos do regime precedente, quando os católicos russos haviam ficado sem pastores e sem uma normal assistência espiritual. […] Essas mesmas pessoas hoje receiam não conseguir receber os sacramentos antes da morte e não serem enterradas segundo as tradições da Igreja Católica, uma vez que seu sacerdote poderia ser expulso da Rússia de uma hora para a outra. […] As principais vítimas das expulsões não são os sacerdotes e o bispo que foram enxotados, mas seu rebanho”.

Em recente entrevista a um jornal polonês, Dom Tadeusz criticou duramente o silêncio da União Européia e das Nações Unidas ante a perseguição com que as autoridades russas, a pedido dos ortodoxos, pretendem estrangular a Igreja Católica.

A promessa de Fátima: o triunfo final

Já anteriormente, ele se mostrara desiludido com o falso ecumenismo, que desconhece as verdadeiras intenções dos parceiros no diálogo religioso:“Reconheço que se errou com esse ecumenismo de salão, totalmente desvinculado da realidadeBasta ver os milhões de euros que os ortodoxos russos recebem de associações caritativas católicas. Sabem essas organizações o destino que os ortodoxos dão a tais doações? Publicam propaganda anticatólica e formam sacerdotes que mobilizam a população contra nós”.

A aventura ecumênica parece enterrada. O próprio cardeal Kasper o reconheceu numa entrevista para a revista “Il Regnode Bolonha: “Com Moscou, o diálogo em nível universal é atualmente muito difícil”.

Essa é uma razão a mais para incentivar, com renovado fervor, a evangelização da Rússia, cuja conversão foi anunciada por Nossa Senhora em Fátima, em julho de 1917: “A Rússia converter-se-á…” Na mesma aparição,  também revelou a grandiosa promesa: “Por fim, meu Imaculado Coração triunfará”.

Nosso apoio aos católicos russos, e sobretudo nossas orações e sacrifícios  por essas vítimas de nova perseguição, podem contribuir possantemente para que seja apressado o triunfo de Maria Santíssima na Rússia e no mundo.

Via Blog Catolicismo

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