Carta a uma criança

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Oi,

Eu não sei o seu nome. Mas saiba que você me fez chorar hoje. É estranho chorar por alguém que a gente não conhece, sabe… Mas a sua imagem na praia me comoveu. Eu sempre gostei de praia e imagino que, na sua idade, você gostaria de correr pela areia, fugir das ondas que vão e vêm, fazer um amontoado de areia molhada e imaginar que aquilo é um castelo, com direito a princesa na janela de uma torre… É triste saber que isso te foi tirado por algum motivo que nem sei qual é, mas também não importa. Qualquer que fosse a razão, foi uma razão estúpida. Injustificável. Cruel.

Eu chorei, menino, porque tenho crianças como você na família. Fico imaginando onde estavam seus pais. Talvez estivessem desesperados atrás de você, talvez estivessem sofrendo porque viram você ser morto e jogado no mar. Também imaginei o mar, deitando seu corpinho sem vida cuidadosamente na areia, para que alguém te encontrasse e te desse um enterro digno. Digno do ser humano que você sempre foi, mas seus algozes não notaram.

Também imagino o que você poderia ter sido se tivesse se tornado adulto. Talvez um médico, capaz de curar as feridas feitas pela crueldade humana. Talvez fosse um sacerdote, capaz de ensinar as pessoas a amar o próximo. Quem sabe um cientista capaz de explorar o espaço em busca de mundos onde a guerra não existisse? Mas o egoísmo, a ganância, o ódio te fez um anjo. Aliás, você já era um anjo, apenas ganhou suas asas cedo demais.

Não entendo por que aconteceu isso com você. Só sei que não é justo. Você tinha tanto pra fazer… tanto pra brincar, pra viver, pra crescer e, quem sabe, consertar aquilo que nós, adultos, estragamos… Se hoje eu choro é porque não vejo ninguém chorando por você. As redes sociais, que pipocam de gente se indignando por coisas tão banais, se fizeram indiferentes à sua imagem. É por isso que eu estou escrevendo, pra você saber que alguém se importou, porque você merece.

Agora que você já está aí, nos braços do Papai do Céu, olhe por nós. Olhe pelos homens que te fizeram isso, pra que eles entendam que não ganharam nada com isso. Olhe por essa humanidade tão incoerente, que trata um cachorro como filho e trata seus filhos como cachorros. Olhe pelos governantes, para que entendam que a guerra só traz dor, desolação e tristeza. No silêncio da sua foto, nos ensine a silenciar também. Silenciar nosso ódio, nossa raiva, nossa maldade.

A sua imagem me lembrou de uma outra criança que também foi perseguida desde a mais tenra idade, mas conseguiu sobreviver e chegar à vida adulta. Daqui mais alguns meses, a gente vai estar reunindo nossas famílias pra comer, beber, dar presentes pras nossas crianças e pedindo por paz. Todo ano a gente pede por paz. Mas depois de alguns dias, a gente esquece o que pediu e começamos de novo nossas fofocas, nossas picuinhas, nossas maledicências… E o pior: nem lembramos da criança que é o motivo da festa. Criança que chegou, sim, à vida adulta, mas que também foi assassinada cruelmente por aqueles que eram os donos do poder. Assim como você.

Eu vejo essa criança em você, meu pequeno bebê. Você é o símbolo de toda crueldade humana. Em você, eu vejo Ele, Aquele que morreu e que disse que “onde estiver um irmão sofrendo, eu estarei presente”. Por isso, gostaria de terminar essa cartinha te batizando. Você merece um nome, porque o nome nos identifica, nos diferencia dos outros, nos dá dignidade. Eu não sei o seu nome, mas a partir de hoje, sempre que eu olhar sua foto, vou te chamar de Menino Jesus. E quero cantar uma canção de ninar pra embalar o seu sonho final: “… dorme em paz, ó Jesus… Dorme em paz, ó, Jesus…”

Fique com Deus e nos perdoe. Nós (ainda) não sabemos o que estamos fazendo…

(Eduardo Marchiori)

(Nota: esta criança foi encontrada morta numa praia da Turquia, após o naufrágio de um barco com imigrantes que fugiam da guerra civil na Síria.)

Via Construtores do Reino

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