Eu sou sacerdote católico. Eu carreguei a culpa de um aborto. Eu encontrei a misericórdia.

Eu sou sacerdote católico. Eu carreguei a culpa de um aborto, cometido décadas atrás.

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Assim que soube da carta em que o papa Francisco deu faculdades universais aos sacerdotes para absolverem o pecado do aborto e levantarem qualquer excomunhão, me vi logo sendo entrevistado na rádio e questionado sobre a nova carta do papa.

“Trata-se de um novo ensinamento? A Igreja está finalmente perdoando as pessoas que cometeram aborto?”

No final do dia, pude ler algumas manchetes da mídia e entendi por que aquelas perguntas estavam sendo feitas. Uma manchete do Yahoo dizia que “o papa manda os padres perdoarem as mulheres que abortaram“. O MSNBC noticiava que “o papa diz que os padres podem permitir este pecado católico” (!) Os comentários gerais que eu vi e ouvi, dentro e fora das mídias sociais, poderiam ser resumido assim: “Como é que a Igreja pode ter sido tão contrária ao aborto a ponto de recusar a misericórdia para as pessoas que o realizaram?“.

Era quase como se, num único dia, tivéssemos superado um “abismo vazio de misericórdia da Igreja”, quando, na realidade, a Igreja é toda baseada na misericórdia!

E eu sou um exemplo vivo de como a Igreja, continuando o trabalho de Cristo na terra, estende a misericórdia de Deus a todos os que buscam essa misericórdia.

Na década de 1970, muito antes de me tornar padre, eu encorajei a minha namorada a fazer um aborto. A culpa nos atingiu quase imediatamente. Fomos confessar o nosso pecado a um padre. A cura da nossa ferida espiritual, porém, demorou muitos e muitos anos. Nossos caminhos acabaram se separando. Trinta anos depois, no seminário, eu dei aconselhamento a um jovem que também tinha sido cúmplice do aborto da namorada. E foi então que eu percebi que era “aquele homem” era eu.

Prudentemente, fui procurar a minha antiga namorada e lhe pedi desculpas. Desculpas por tê-la machucado. Desculpas por não ter sido um verdadeiro homem, décadas antes.

Foi só naquele dia que eu soube que, ao cometer aquele aborto, nós tínhamos eliminado nossos filhos gêmeos. Ela tinha mantido segredo até aquele dia em que eu fui pedir desculpas. Revelar aquela ferida, guardada durante tantos anos, abriu uma torrente de graça divina em seu processo de cura interior. E no meu também.

Você pode se perguntar: “Mas como é que um homem que carrega a culpa de tal pecado pôde se tornar sacerdote?

É porque a Igreja, como deveria ser, é misericordiosa! Ela é misericordiosa como Jesus é misericordioso.

Sim, é verdade que a Igreja precisava ter a certeza de que a minha ex-namorada e eu tínhamos aberto sinceramente a nossa alma ao perdão e à misericórdia. Sim, é verdade que a Igreja precisava ter a certeza de que a minha ex-namorada estava consciente e aprovava a minha decisão de abraçar o sacerdócio. E sim, é verdade que esse pecado é um impedimento para a ordenação de um padre.

Mas, como acontece com tantas e tantas outras circunstâncias dentro da Igreja, a devida investigação e as devidas disposições de espírito podem permitir uma dispensa desses impedimentos. Eu fui um dos destinatários dessa dispensa. Da mesma forma, uma mulher que desejasse entrar na vida religiosa como freira poderia receber a mesma misericórdia num caso semelhante. A Igreja é chamada a ser misericordiosa como Cristo é misericordioso!

E esses atos de imensa misericórdia em nada diminuem o peso do ensinamento moral da Igreja sobre o aborto como um pecado gravíssimo; assim como em nada diminuem o ensinamento da Igreja de que todos os pecados são perdoáveis ​​quando se busca o perdão e se está verdadeiramente arrependido. O papa Francisco é claro na carta aos sacerdotes em que os autoriza a perdoar quem confessa ter cometido aborto: podem ser perdoados todos “aqueles que tenham provocado aborto e que, de coração contrito, buscam o perdão“.

A carta do papa reforça o que eu e muitos outros católicos já sabíamos: a Igreja católica é toda baseada em misericórdia e perdão, como Cristo, sua Cabeça. É na misericórdia que as pessoas encontram o caminho para a verdadeira cura interior e, com ela, para a paz.

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Depoimento do pe. Stephen Imbarrato, sacerdote católico da arquidiocese de Santa Fe, nos Estados Unidos. O pe. Stephen é hoje membro do ministério Priests for Life (Sacerdotes pela Vida).

Via ALETEIA

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