A ESTRELA APAGA: DO CATOLICISMO AO FEMINISMO

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Confesso já ter sido profundamente crente de que o engajamento por um mundo melhor liberta e emancipa o homem, enquanto a fé o aprisiona e aliena. Bombardeado por discursos ideológicos, distorções históricas e símbolos kantianos durante toda a adolescência, naturalmente, tornei-me um formidável monstrinho. Minha imaginação sofria de intoxicação, e até hoje lido com as sequelas. Então, quando possível, busco ajudar aqueles que manifestem sintomas de envenenamento mental. Tentei acudir uma conhecida minha, mas o veneno foi tão forte e inebriante que a exterminou completamente. O episódio se dera há coisa de dois, três anos atrás. Chama-la-ei de Leniza, em homenagem à personagem de Marques Rebelo.

A conheci na faculdade (ela, como cerca de 92% da população brasileira, cursava Direito). Era bonita, de uma beleza pouco comum. A pele branca, junto dos cabelos lisos, tão escuros quanto os olhos, lhe atribuía um ar de meiguice e recato que despertava atenção. Descobri que era católica quando a vi vendendo água no semáforo junto de outros jovens do EJC. Conversamos algumas vezes e, para minha surpresa, todas foram assombrosas. Era notável como seu catolicismo estava doente.

Depois, descobri a causa: Leniza não desgrudava do professor mais feminista do curso. Entre os dois, segundo me parecia, havia um intenso compartilhamento de vertigens. A fantasia de construir o império da “igualdade de gênero” tornara-os tão unidos quanto Dom Quixote e Sancho Pança. Tentei alertá-la acerca da incompatibilidade entre sua condição católica e seus novos fetiches políticos, mas o melhor que obtive foram as pechas de intolerante e machista. “Machista”. Quando tentamos ser caridosos com aqueles intoxicados pelo veneno revolucionário, e somos retribuídos com xingamentos típicos da retórica politicamente correta, é sinal de que o pretenso agente político já vergou a pessoa real. A alma de Leniza chegou ao coma.

Para minha sorte, naquela mesma época, o glorioso Pedro Augusto (também colunista deste distinto portal) estava ministrando um curso de formação católica. O mundo ainda não sabe, mas as aulas do Pedro são quase como milagres, pois é difícil não se encantar pela Igreja após ouvi-lo. Resolvi convidar Leniza, então, na esperança de que aquele encanto pudesse reanimar sua alma e atravancar as veleidades ideológicas. Disse-lhe: “Olha, um amigo meu está ministrando um curso assim, assim. Na primeira aula, ele tratou de alguns dogmas da Igreja, das Verdades de Fé, do Credo, etc. Não te chamei antes, pois havia me esquecido. Que tal?” A resposta demorou.

Não lembro exatamente as palavras de Leniza. No entanto, mais importa a carga simbólica desta mensagem: “Nossa, Caio. Muito obrigada pelo convite! Sério, acho super válidas essas discussões. Sempre me acrescentam bastante, e fazem com que eu me sinta uma pessoa melhor e mais aberta. Agora, olha… Essa coisa de dogmas. Acho que a gente não pode engessar a nossa visão do mundo. O certo é termos abertura para o diferente, sabe? De novo, agradeço muito. Vou ver se apareço!” Enfim, não havia mais dúvidas: a feminista matou a católica.

Leniza é apenas uma amostra da grande confusão mental de nosso tempo. Chesterton, salvo engano, uma vez disse que desejar uma religião sem dogmas é como pedir um pastel de queijo sem queijo. Pensar que viver os dogmas católicos significa uma vida aprisionada, enquanto o feminismo representa a verdadeira liberdade, só revela o completo desconhecimento tanto da doutrina quanto da experiência de ambas as coisas.

De forma sucinta, basta dizer que, aos olhos de Deus, a mulher é extremamente sagrada, pois dela brotam a vida e a alegria. Por isso, são dotadas de uma dignidade tão grande, que a postura diante do Criador não pode ser outra senão a de gratidão e resignação.

Contemplem a foto abaixo. Ocorreu durante a Santa Missa. Minha namorada ficou tão admirada da piedade dessa senhora que fotografou-a no momento da comunhão. Será mesmo possível dizer que trata-se de pura e cega submissão? De uma frágil personalidade que precisa projetar suas fraquezas n’um conjunto de dogmas para sentir-se segura?

Naquele domingo, essa senhora escolheu acordar cedo. Não era obrigada a ir para a Igreja, mas assim o fez. Optou por vestir o véu, pois sabia que significava esconder a formosura de seu rosto, de seus cabelos, para que sua beleza estivesse, ao menos durante a eucaristia, somente voltada Àquele que a ornou desses mesmos bens.

Tantas decisões antiquadas, certamente, não podem significar fraqueza ou alienação, uma vez que vão na contramão de todos os pressupostos da atual e garbosa idéia de emancipação feminina. Portanto, a grande verdade – por mais que o mundo moderno chore e ranja os dentes -, é a seguinte: essa senhora é livre; plenamente livre, e de uma liberdade profundamente misteriosa. A senhora da foto é livre porque ama, e ama porque é livre. E quem nesse mistério somente enxerga grilhões, é porque já está cego para o amor. Agora, voltemos a Leniza.

Naturalmente, nunca mais nos falamos. Ela, por ter aberto sua mente às mais diferentes visões de mundo, começou a cortar contato e excluir das redes sociais todos aqueles que tivessem opiniões diferentes das suas. Também, por não estar restrita a dogmas ou pensamentos fechados, começou a participar de passeatas feministas. Ainda lembro de tê-la visto na rua com um fabuloso e nada dogmático cartaz que dizia: “Cunha, meu útero não é banco suíço pra ser da sua conta! Meu corpo, minhas regras!“. Ah, também deixou os cabelos curtíssimos e parou de sorrir nas fotos. Frutos do bom e velho desejo de identificação grupal.

Vejam quão admirável foi a emancipação de Leniza. De moça católica e bonita, tornou-se mais uma revoltada no meio de uma horda de barangas. No seu cartaz, nas suas postagens, no seu corte de cabelo, nas suas fotos, não há nada de original. É só mais uma devota de cartilha política, e por isso mesmo deixou-se ser feita à imagem e semelhança do ideal que julga construir. Pergunto: por que raios trocar os dogmas de uma lindíssima tradição de dois mil anos, por cinco ou seis chavões de uma moda cultural tão grotesca quanto recente é um sinal de emancipação?

É necessário compreender que a piedade e a devoção da mulher católica estão edificadas n’um forte senso de transcendência. O feminismo é puro materialismo. Se os olhos da feminista miram o futuro, os da católica apontam para a eternidade; enquanto a primeira nutre ódio contra a “realidade opressora”, a segunda busca aceitar tudo amorosamente, pois é grata a Deus por tê-la considerado digna de ser fonte de vida para a Criação.

No fim das contas, nos deparamos com o problema da escolha. O homem ainda é livre para escolher, muito embora pareça ter perdido a noção de que nem todas as suas decisões lhe conservarão a liberdade. Parafraseando Roger Scruton, é necessário decidirmos se queremos viver para proteger o que amamos, ou destruir o que odiamos, com a consciência de que a escolha pelo ódio sempre será mais sedutora, e por isso mesmo nos transforma em cativos. Leniza e a senhora de véu fizeram suas escolhas. Quem permaneceu livre?

Fonte: Homem Eterno

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